O que passa pela estrada
Em Paisagens Transitórias, Anuschka Lemos transforma cerca de 200 mil quilômetros percorridos por 18 países em uma investigação sobre aquilo que vemos apenas por alguns segundos e que a fotografia impede de desaparecer
O tema do ensaio surgiu quase por acaso. Era 2013 e Anuschka Lemos fazia sua primeira viagem à Patagônia. No caminho para Torres del Paine, no Chile, fotografava de dentro do carro quando registrou um ponto da Ruta Y 200, o Km 5. A estrada avançava diante dela e a paisagem desaparecia rapidamente pela janela. Mas aquela imagem voltou para o Brasil.
E ficou.
Anuschka olhou para a fotografia e reconheceu alguma coisa que ainda não sabia exatamente nomear. Havia ali a estrada, mas também o deslocamento, a descoberta, a sensação de não saber completamente o que existia adiante.
“Gente, isso sou eu. Isso é uma coisa que eu quero muito”, lembra ter pensado ao rever uma das imagens feitas naquela região.
A fotografia deu origem ao Projeto Km5 e marcou o começo do que a fotógrafa paranaense define como um caso de amor com estradas, fronteiras, mapas e com a própria sensação de se perder pelos caminhos.


Desde aquela primeira viagem foram 42 jornadas, 18 países, 77 fronteiras e mais de 200 mil quilômetros percorridos. Inicialmente concentrados no sul das Américas, os trajetos aos poucos avançaram para lugares mais distantes.
Durante mais de uma década, entretanto, Anuschka não teve pressa em transformar o que produzia em um ensaio fechado. Algumas imagens apareceram pontualmente em exposições e outros eventos. A maior parte permaneceu guardada.
Era preciso percorrer o caminho antes de tentar compreendê-lo.


Aquilo que mal vimos
Em 2025, Anuschka decidiu voltar a esse imenso arquivo visual. Depois de anos fotografando, era hora de observar o que havia permanecido pelo caminho.
Foi quando começou a reconhecer com mais clareza os conjuntos que existiam dentro daquele universo e a organizar o trabalho em torno da ideia de Paisagens Transitórias.
São fotografias feitas quase sempre em movimento. De dentro do carro, sobre uma moto, pela janela de um ônibus ou a partir de um barco. Instantes mínimos, lapsos de cenas que podem escapar até mesmo de um olhar atento.
“São as paisagens que você mal vê e elas aconteceram na tua vida”, explica. “Você só percebe o potencial delas quando você tem a foto. Se não existisse essa fotografia, eu nem sabia direito que elas existiam. Elas tinham passado por mim.”
É uma ideia fundamental para compreender o trabalho.


Anuschka não parte em busca apenas de lugares extraordinários. Interessa a ela aquilo que surge enquanto se desloca entre um destino e outro. Um ponto de ônibus. Uma placa. Uma construção solitária. Alguém caminhando. Um animal. Uma alteração na vegetação. Uma estrada que repentinamente fica vazia. Uma determinada luz.
São acontecimentos pequenos demais para interromper uma viagem.
A fotografia os interrompe.
Ao conferir as imagens no fim do dia, caminhos aparentemente vazios revelam uma quantidade de acontecimentos que talvez sequer tenham sido percebidos no instante do disparo. A câmera registra aquilo que os olhos quase não tiveram tempo de enxergar.


Fotografar antes de entender
O processo criativo de Anuschka não costuma começar com um projeto completamente definido. Primeiro vem a experiência. Depois, a fotografia. Somente então ela procura compreender aquilo que seu olhar vem repetindo.
É um método que também leva para a sala de aula. Ela é professora de fotografia na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, em Curitiba.
“Sai e fotografa. O que te interessa vai aparecer nas fotos muito mais do que você tem consciência”, costuma dizer aos alunos.
Ela própria trabalha dessa maneira. Fotografa, reúne imagens, aproxima fotografias e procura recorrências. Quando alguma coisa aparece mais de uma vez, começa a investigar se existe ali um caminho.
Foi assim com as estradas.


Depois daquela primeira imagem na Patagônia, passou a fotografá-las de maneira mais consciente. Ainda assim, foram necessários anos até sentir que o conjunto começava a adquirir a densidade que procurava.
Anuschka acredita em processos demorados.
Em 14 anos de produção, a fotógrafa conseguiu identificar uma série de temas que foi abrigando sob o guarda-chuva do que virou o projeto Paisagens Transitórias. Atmosfera, Espera, Perro del Sur, Tempo Fóssil, Ponto de Fuga.

A estrada como pesquisa
O deslocamento já aparecia em trabalhos anteriores de Anuschka. Nos anos 2000, fotografou aquilo que chamava de “espaços de passagem”, lugares construídos não para permanecer, mas para atravessar.
Participou de projetos coletivos e exposições no Chile, Peru, Venezuela e Argentina. Em Noites Surdas, investigou acontecimentos noturnos da cidade de Curitiba.
Nas estradas, essa investigação encontrou uma escala diferente.
O interesse por Paisagens Transitórias ultrapassou a produção fotográfica e chegou à pesquisa acadêmica. No pós-doutorado, Anuschka passou um ano estudando como a ideia de transitoriedade poderia ser encontrada dentro da história e do pensamento sobre a fotografia.

Chegou a três possibilidades principais.
Uma paisagem pode ser transitória porque alguém passa rapidamente por ela.
Pode ser transitória porque o próprio mundo está mudando, com cidades e territórios submetidos a transformações cada vez mais velozes.
E pode ser transitória porque hoje grande parte das paisagens é conhecida por meio de telas. Aparece diante dos olhos e, segundos depois, desaparece para dar lugar à próxima imagem.
A pesquisa ajudou Anuschka a compreender aquilo que a câmera vinha fazendo havia anos.

Uma fotografia que não grita
Há outra decisão importante em Paisagens Transitórias: evitar a imagem espetacular.
Estradas carregam uma iconografia poderosa. Horizontes infinitos, curvas perfeitas, montanhas monumentais, céus dramáticos. Anuschka conhece esse repertório, mas procura outra coisa.
“Eu não gosto daquela imagem que grita muito”, explica. “Eu gosto da sutileza, eu gosto daquela coisa que parece que a pessoa tem que encontrar na foto o que é interessante.”
Ela quer que alguma coisa permaneça sem resposta.
Uma imagem pode até incomodar, desde que esse incômodo faça o observador permanecer diante dela um pouco mais.
Para Anuschka, apenas a beleza não basta. Uma fotografia precisa despertar alguma coisa. Não necessariamente um conhecimento racional. Pode ser uma experiência sensível, uma dúvida ou uma pequena desestabilização.

Talvez exista uma explicação para Anuschka procurar imagens que não se encerram nelas mesmas.
Uma amiga costuma dizer que ela é, na verdade, uma fotógrafa de literatura. Ela reconhece alguma verdade na provocação.
Na literatura, o leitor recebe palavras e constrói mentalmente cenários, personagens, atmosferas e sentidos. Anuschka procura algo semelhante na fotografia.
Interessa a ela a imagem que não entrega tudo.
“Me interessa a fotografia que não te dá o mundo pronto, mas que te dá um mundo para ser explorado.”
É também por isso que a fotógrafa valoriza a ligação física da fotografia com aquilo que esteve diante da câmera. Para ela, por mais ficcional que uma imagem possa se tornar, existe um ponto inicial no mundo real, alguma coisa que refletiu luz e esteve diante da objetiva.

O que não foi fotografado
Dentro do carro, não existe muito tempo para pensar.
O companheiro de vida Ivan dirige. Anuschka observa.
Às vezes percebe alguma coisa a cerca de 200 metros e se prepara. Abaixa o vidro, ajusta a câmera, acompanha a aproximação.
Em outras, não há tempo.
A imagem passa.
A câmera utilizada durante boa parte do projeto é uma Canon 6D. Para trabalhar em movimento, Anuschka precisa de velocidades altas e, principalmente, de foco rápido.
Mesmo assim, perde imagens.
Muitas.
Basta pegar uma garrafa de água no momento errado para que alguma coisa apareça e desapareça pela janela.
Quase nunca pede para Ivan voltar.
Algumas dessas fotografias inexistentes continuam guardadas na memória.
Elas também pertencem ao projeto.
Porque Paisagens Transitórias não é apenas sobre aquilo que Anuschka conseguiu fotografar. É sobre a impossibilidade de reter completamente a experiência de atravessar um lugar.
A estrada estabelece o ritmo.
A fotografia tenta acompanhá-la.
