Entre janelas

Em “Conhecidos de Vista”, Letícia Lampert visitou prédios de Porto Alegre para investigar a intimidade silenciosa entre pessoas que se veem todos os dias, mas quase nunca se conhecem

Entre janelas

A primeira dificuldade era entrar. Letícia Lampert queria fotografar de dentro de apartamentos de desconhecidos, observar pela janela o prédio da frente e, se possível, atravessar a rua e repetir o movimento no sentido contrário. No papel, a ideia parecia simples. Na prática, exigia descobrir como convencer alguém a abrir a porta de casa para uma fotógrafa que aparecia sem aviso.

No início, Letícia tentou o caminho mais formal. Escolheu, no Centro de Porto Alegre, uma rua estreita, com edifícios frente a frente, procurou os síndicos e chegou a imaginar reuniões de condomínio, cartas aos moradores, visitas previamente combinadas. Um dos síndicos conseguiu agendar um apartamento. Ela pensou que, se havia conquistado um lado da rua, precisava conseguir o outro. O síndico do prédio em frente entrou no jogo.

No dia marcado, Letícia chegou com câmera e tripé. A movimentação despertou a curiosidade dos moradores. Vieram as perguntas. O que estava fazendo? Por que fotografava dali? Ela explicou e começou a perguntar se poderia entrar também em outros apartamentos. Podia. Os dois imóveis agendados viraram sete.

Foi quando percebeu que talvez não precisasse organizar tanto o acaso.

A câmera, descobriu, funcionava como uma espécie de carta de apresentação. O equipamento ajudava a explicar sua presença naquele espaço estranho entre o público e o privado. E havia ainda outra credencial importante: naquele momento, Letícia desenvolvia sua pesquisa de mestrado e podia se apresentar como pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A partir daí, os porteiros se tornaram aliados. Letícia chegava aos edifícios, explicava o projeto e perguntava se havia algum morador em casa disposto a recebê-la. Muitas vezes, eram eles que indicavam quem provavelmente abriria a porta. Em outras, sugeriam que voltasse mais tarde.

Assim começou a tomar forma “Conhecidos de Vista”, trabalho desenvolvido principalmente entre 2011 e 2013 e que levaria Letícia a entrar em mais de 70 apartamentos de Porto Alegre.

A cidade sem horizonte

Letícia estabeleceu algumas regras para o ensaio. Uma delas era fundamental: não deveria haver horizonte. Nada de uma janela aberta para o céu ou de uma paisagem distante. A vista precisava estar interrompida por outro edifício.

Essa condição ajudou a determinar também a geografia do trabalho. As fotografias foram realizadas principalmente no Centro e nos bairros Bom Fim e Independência, regiões em que a proximidade entre os prédios permitia aquela relação visual quase íntima entre apartamentos.

Inicialmente, Letícia imaginava trabalhar com diferentes classes sociais. A própria experiência nas ruas, porém, acabou estabelecendo outro recorte. Nos edifícios mais sofisticados, os sistemas de segurança e os sucessivos bloqueios dificultavam qualquer aproximação. Nos prédios mais simples, sem porteiro, também era complicado chegar aos moradores. Nos edifícios de classe média, encontrou uma espécie de território intermediário: havia alguém na portaria capaz de compreender o que ela procurava e fazer a mediação.

O método acabou incorporando aquilo que a cidade permitia.

Havia outras dificuldades. A fotografia precisava ser feita durante o dia, quando os moradores estivessem em casa. O apartamento poderia ter uma árvore bloqueando demais a janela, um pouco de céu aparecendo ou simplesmente não oferecer o ângulo necessário. Salas pequenas, janelas estreitas e plantas diferentes obrigavam Letícia a resolver cada imagem diante de uma situação que só descobria depois que a porta se abria.

Ela também queria uma unidade visual. Os enquadramentos deveriam ser frontais. As linhas, retas. O exterior e o interior precisavam conviver sem que um deles desaparecesse na exposição.

Curiosamente, apesar desse rigor, Letícia não se define como uma fotógrafa particularmente técnica. O tripé levado às primeiras visitas logo foi abandonado. Preferia trabalhar com a câmera na mão e, quando necessário, produzir exposições diferentes para o interior e o exterior, reunindo-as depois na pós-produção.

Outra descoberta veio olhando para o céu que ela não queria mostrar: os melhores dias eram os nublados.

A luz direta criava contrastes excessivos e cores que se afastavam da atmosfera procurada. Letícia queria neutralidade, homogeneidade, certa penumbra. O cinza de Porto Alegre acabou se tornando também uma ferramenta do ensaio.

“Eu queria uma estética que eu sabia o que era”, explica. O problema era descobrir, enquanto fotografava, como chegar até ela.

Antes das janelas

Essa atenção à maneira como os espaços interferem na percepção atravessa a trajetória de Letícia Lampert. Antes da fotografia, veio o design. Ela estudou desenho industrial, com formação em design gráfico, em Canoas, e mais tarde ingressou nas artes visuais na UFRGS.

Foi estudar artes querendo desenhar melhor. Acabou encontrando na fotografia uma linguagem.

O interesse já existia. No curso de design, havia tido contato com a fotografia como disciplina. Nas artes, passou a procurá-la com maior intensidade. Comprou uma câmera, começou a desenvolver projetos e percebeu que fotografar correspondia melhor à sua maneira de observar.

Sua trajetória, portanto, percorreu um caminho diferente daquele de muitos autores que começam na fotografia comercial para depois construir uma produção artística. Letícia já chegou à fotografia pela pesquisa. O design gráfico permaneceu como atividade profissional paralela.

Porto Alegre foi o primeiro território importante desse olhar, mas uma temporada na Austrália provocou uma mudança decisiva.

Até então, Letícia trabalhava com colagens e com elementos ligados ao improviso da paisagem urbana — casas modificadas, puxadinhos, soluções arquitetônicas informais. Na Austrália, encontrou uma cidade extremamente organizada. A linguagem que havia construído no Brasil simplesmente não funcionava ali.

A frustração produziu uma pergunta mais interessante: como um lugar transforma a maneira de olhar?

Depois de voltar a Porto Alegre, Letícia passou a procurar residências artísticas e experiências que permitissem confrontar cidades. Esteve na China, viveu brevemente em São Paulo e continuou investigando como diferentes estruturas urbanas alteravam sua percepção e, consequentemente, sua fotografia.

A arquitetura ganhou importância nesse processo, embora ela faça questão de não se apresentar como alguém interessada em estudá-la tecnicamente. O que lhe interessa é a experiência de quem vive a cidade: a arquitetura como aquilo que organiza distâncias, bloqueia vistas, aproxima desconhecidos e interfere, muitas vezes sem percebermos, na maneira como nos relacionamos.

Em “Conhecidos de Vista”, essa investigação encontrou uma forma especialmente precisa.

Eu vejo você

No começo, Letícia estava concentrada essencialmente nas imagens. Queria fotografar o apartamento e encontrar, no edifício oposto, a posição correspondente. A intenção vinha de uma série anterior, “Avessos”, na qual experimentava fotografar paredes e fachadas de dentro e de fora.

Mas tentar localizar exatamente a mesma janela do outro lado da rua tornava o processo excessivamente rígido. Nem sempre o morador correspondente atendia. Às vezes, a porta que se abria ficava dois andares acima ou abaixo.

Foi uma conversa aparentemente banal que mudou o projeto.

Em uma das primeiras visitas, Letícia perguntou a uma moradora se ela conhecia a vizinha da frente. A resposta revelou um tipo de relação que a fotografia, sozinha, ainda não conseguia mostrar. Do outro lado vivia uma senhora idosa. Todas as manhãs, a moradora observava sua janela para conferir se ela havia sido aberta. Era a maneira de saber se estava tudo bem.

As duas não precisavam compartilhar a mesma casa, talvez nem uma amizade convencional. Bastava uma janela.

Letícia percebeu que aquelas histórias também pertenciam ao trabalho.

Passou então a perguntar aos moradores: você conhece seu vizinho da frente?

Vieram pequenos relatos. Uma mulher solitária observava um casal jantar junto e imaginava a harmonia daquela relação. Alguém lembrava de festas e conflitos entre vizinhos. Outro sabia que, atrás de determinada janela, havia um torcedor do mesmo time e, nos jogos, os dois comemoravam à distância. Houve também histórias trágicas, como a de quem testemunhou alguém se jogar de uma janela.

Nada precisava ser extraordinário. A força estava justamente no cotidiano.

Era uma intimidade construída à distância. Pessoas que conheciam hábitos, horários, silhuetas e pequenos acontecimentos da vida umas das outras sem necessariamente saber seus nomes.

O apartamento como retrato

Letícia não colocava os moradores diante da câmera.

De cada apartamento, fazia duas imagens: uma voltada para o exterior e outra mostrando o ambiente interno. Queria que a própria casa funcionasse como uma espécie de retrato de quem vivia ali.

Móveis, cortinas, objetos, plantas, quadros, cores e a disposição da sala davam pistas sobre uma pessoa que permanecia fora do enquadramento. Do outro lado estava a fachada, com suas janelas repetidas, atrás das quais existiam outras casas, outras histórias e outros observadores.

Interior e exterior passaram a conversar.

A decisão também preservava uma distância coerente com o próprio assunto. Letícia entrava, fotografava, conversava brevemente e ia embora. Não pretendia transformar aquelas aproximações em amizades ou realizar longas entrevistas.

Em certo momento, alguém sugeriu que apresentasse os vizinhos fotografados.

Ela preferiu não fazer isso.

Interferir significaria talvez romper justamente o equilíbrio que procurava compreender. Existe um código silencioso nessas relações: conhecemos sem conhecer; vemos sem necessariamente demonstrar que estamos vendo. A proximidade física não exige intimidade.

“Eu tô te vendo, mas não tô te vendo e a gente tá bem assim”, resume Letícia.

O ensaio acabou assumindo diferentes formas. Em uma versão audiovisual, as fotografias foram combinadas aos relatos gravados durante as visitas. Quando o projeto se transformou em livro, as falas foram transcritas e incorporadas às imagens. Para Letícia, a fotografia sozinha já não bastava: as histórias eram necessárias para revelar aquilo que permanecia invisível nas fachadas.

O livro, produzido com apoio do Funproarte, teve tiragem de mil exemplares e está esgotado. O trabalho também foi apresentado em exposição na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, junto ao período da defesa de seu mestrado. A versão em vídeo circulou por exposições e pelo Festival de Tiradentes.

Mais de uma década depois das primeiras fotografias, “Conhecidos de Vista” ganhou ainda uma inesperada atualização.

Durante a pandemia de Covid-19, milhões de pessoas experimentaram de maneira radical aquilo que o ensaio já observava anos antes. Presos dentro de casa, moradores de edifícios passaram a olhar com outra intensidade para as janelas em frente. Varandas viraram pontos de contato. Vizinhos desconhecidos passaram a compartilhar música, conversas, aplausos, silêncios e rotinas.

O mundo havia se aproximado daquelas fotografias.

Mas talvez a força de “Conhecidos de Vista” esteja justamente no fato de que o trabalho nunca dependeu daquela circunstância excepcional. Letícia fotografou uma experiência anterior e mais permanente das grandes cidades.

Vivemos separados por poucos metros.

Sabemos quando a luz do apartamento da frente acende. Reconhecemos quem rega as plantas pela manhã, quem deixa a cortina aberta, quem chega tarde, quem assiste televisão à noite. Podemos acompanhar durante anos pequenos fragmentos de uma vida sem jamais atravessar a rua.

Às vezes, porém, alguém olha todas as manhãs para conferir se uma janela voltou a se abrir.

E isso também é uma forma de conhecer.

A reportagem foi construída a partir da entrevista e do resumo enviados, especialmente dos relatos sobre as mais de 70 visitas, o processo de abordagem dos moradores, a incorporação das histórias de vizinhança e a trajetória de Letícia entre design, artes visuais e fotografia.


Letícia Lampert. (Crédito da foto: Fabricio Barreto)

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