O transe depois do relógio

No ensaio Expediente, André Sanches transforma o fim do dia no centro de Curitiba em uma coreografia silenciosa de luz, cansaço e deslocamentos que se repetem até virar paisagem humana.

O transe depois do relógio

O centro da cidade muda de pele quando o expediente termina.

As vitrines ainda acesas disputam espaço com o azul frio do começo da noite. O vermelho dos freios dos ônibus atravessa as faixas de pedestres. Gente apressada desce escadas, atravessa terminais, dobra esquinas sem olhar para os lados. Há movimento por todos os cantos, mas existe também um estranho silêncio. Não o silêncio literal. O outro. Aquele que nasce do cansaço.

Foi nesse intervalo entre o trabalho e a volta para casa que André Sanches encontrou o coração do ensaio Expediente.

O projeto começou sem anúncio, sem manifesto e sem qualquer certeza de que um dia viraria livro ou exposição. Durante anos, ele apenas caminhou. Observava. Esperava. Fotografava.

“Eu fazia fotografia de rua meio escondido”, conta. “Gostava de fotógrafos mais agressivos, como o Bruce Gilden, mas eu não tinha coragem de chegar tão perto. Então eu ficava meio camuflado no centro.”

Antes da fotografia ocupar o primeiro plano, André trabalhava como diretor de arte em agências de publicidade. Em 2007, deixou Curitiba. Passou um período em Santa Catarina e depois foi morar em Dublin, na Irlanda. Foi lá que a fotografia começou a ganhar outro peso.

Na capital irlandesa, fez assistência para fotógrafos de publicidade, acompanhou bandas de afrobeat em festivais e realizou seus primeiros trabalhos remunerados. Também participou de uma exposição coletiva antes mesmo de viver exclusivamente da câmera.

Quando voltou ao Brasil, em 2013, retornou decidido a trabalhar como fotógrafo. Abriu um estúdio, passou a atender agências e clientes comerciais, mas continuou circulando pelo centro de Curitiba quase diariamente. Sem saber exatamente o que procurava.

“Eu inventava vários projetos e nada parecia acontecer”, lembra. “Só que eu continuava fotografando a rua.”

Até uma noite qualquer.

Depois de tomar café com um amigo, já no fim do dia, André saiu caminhando pelo centro e fez algumas imagens. Ao chegar em casa, percebeu que havia algo diferente ali.

“Até hoje eu não sei explicar exatamente”, diz. “Mas tinha uma atmosfera. O jeito que a luz trabalhava, o movimento das pessoas, aquela sensação silenciosa.”

As primeiras imagens nasceram quase por instinto. O ensaio ainda nem tinha nome. No Instagram, ele chamava aquilo apenas de “fim do expediente”.

Com o tempo, percebeu que voltava sempre aos mesmos lugares. Praça Rui Barbosa. Guadalupe. Rua XV. Terminais. Esquinas repetidas em horários repetidos. O centro virou uma espécie de laboratório visual.

Mas Expediente não é um ensaio sobre Curitiba.

A cidade funciona mais como palco.

O verdadeiro tema está nas pessoas que atravessam esse cenário diariamente, quase como peças de uma engrenagem invisível.

“No livro, eu chamei isso de transe coletivo”, explica. “As cidades se deslocam em transe.”

Nas imagens, homens e mulheres parecem presos em coreografias involuntárias. Corpos alinhados geometricamente. Caminhos repetidos. Olhares baixos. Pessoas atravessando o quadro como se obedecessem a uma força maior.

André passou anos tentando capturar exatamente esse estado.

“Eu esperava os alinhamentos acontecerem. As pessoas ocupando posições que pareciam montadas. Como se elas tivessem sido distribuídas ali.”

O ensaio amadureceu junto com a própria percepção do fotógrafo. No início, a busca era muito estética. Depois, vieram outras camadas.

A luz começou a ganhar protagonismo.

A mistura entre o amarelo dos postes, o vermelho dos freios, o brilho das vitrines e os últimos restos de azul do céu virou matéria-prima narrativa. Fotografando sempre no mesmo horário, André passou a entender o comportamento daquele intervalo do dia quase como um fenômeno físico.

“Tem uma tensão específica nesse horário”, diz. “Tudo está mudando ao mesmo tempo.”

Há também uma dimensão política discreta no projeto.

O fotógrafo lembra que as primeiras imagens surgiram justamente na semana em que discussões sobre a reforma trabalhista dominavam as redes sociais. Enquanto parte da internet protestava, o centro seguia funcionando normalmente. As pessoas continuavam caminhando para o ônibus, atravessando ruas, carregando mochilas e cansaços.

“Eu olhei aquilo e pensei: está tudo igual”, recorda. “Porque as pessoas precisam continuar.”

Expediente virou livro em 2025.

A percepção atravessou o ensaio sem virar panfleto. Em Expediente, a crítica nunca aparece de forma literal. Ela está nas repetições. Na exaustão. Na ausência de encontro. No deslocamento automático.

Talvez por isso as imagens provoquem uma sensação estranha de familiaridade. Quem olha reconhece aquele estado. Mesmo sem nunca ter passado pelas mesmas ruas.

Durante muito tempo, André não acreditou que o trabalho pudesse ganhar corpo fora das redes sociais. A virada começou em 2022, quando a galerista Malu Meyer viu as imagens e sugeriu uma pequena exposição no Museu da Fotografia de Curitiba.

Foi a primeira vez que ele organizou um recorte do projeto na parede.

Depois veio o incentivo do fotógrafo Lucas Pontes, que insistiu para que o ensaio se transformasse em livro.

“Ele falava que o livro era o que ficava”, lembra André.

O projeto acabou aprovado em edital de mecenato e ganhou forma definitiva. Foram centenas de imagens acumuladas ao longo de quase dez anos até chegar ao recorte final.

Na parede do estúdio, enquanto editava as fotografias, André começou a perceber padrões que nem ele mesmo havia notado durante as caminhadas: repetições de gestos, composições semelhantes, ritmos visuais que atravessavam anos inteiros de trabalho.

“Foi quando eu entendi melhor o que eu tinha feito.”

Hoje, Expediente continua aberto. O fotógrafo segue caminhando pelo centro. Ainda encontra novos enquadramentos, novas tensões e novos personagens atravessando o mesmo ritual diário.

E talvez seja justamente isso que torne o ensaio tão forte.

Porque o expediente nunca termina de verdade.

As cidades continuam se movendo.

As pessoas continuam atravessando a noite.

E alguém, parado na esquina certa, continua tentando entender o que existe de humano nesse movimento automático.


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