O acaso diante da câmera

Da estação de trem abandonada que revelou a história de sua própria família à fotografia que lhe abriu as portas de uma escola de arte em Londres, Luiz Bhering construiu uma trajetória guiada pela curiosidade, pelos encontros e pela capacidade da fotografia de preservar memórias

O acaso diante da câmera
Série "Baía de Guanabara"

A fotografia que ajudaria a mudar a vida de Luiz Bhering nasceu de uma pequena transgressão no metrô de Londres. Ele estava com a câmera apontada para um anúncio da Benetton quando dois funcionários uniformizados surgiram diante da lente. No cartaz, três crianças (uma branca, uma negra e uma asiática) faziam caretas, com a língua para fora. Era uma das campanhas publicitárias que ajudaram a transformar a marca italiana em fenômeno mundial nos anos 1980.

Os dois homens não estavam interessados na propaganda. Queriam interromper o fotógrafo.

— Você não pode fazer fotos aqui.

Luiz abaixou a câmera. Percebeu, porém, que os funcionários pareciam simpáticos. Resolveu arriscar.

— Mas de vocês eu posso tirar uma foto?

Eles aceitaram.

Sem perceber o que havia atrás deles, abraçaram-se e sorriram para a câmera. Luiz voltou a olhar pelo visor. Em primeiro plano, os dois homens uniformizados posavam solenemente. Ao fundo, as crianças do anúncio mostravam a língua.

Ele disparou várias vezes.

Meses antes, Luiz havia desembarcado na Inglaterra disposto a estudar fotografia, mas sem câmera. Vendera no Brasil uma Canon e as lentes para pagar a passagem e se manter nos primeiros tempos em Londres. Aos 23 anos, trabalhava como lanterninha do Canal Cinema, na Kings Road, em Chelsea, e economizava tudo o que podia. Durante três meses, reduziu até a alimentação para juntar dinheiro suficiente para comprar uma Nikon F2 usada.

A câmera, que guarda até hoje, tinha uma missão imediata: produzir as fotografias necessárias para tentar uma vaga na City Polytechnic School of Arts and Design.

Luiz chegou diante da banca com cinco ampliações. Do outro lado da mesa estavam quatro professores. A fotografia dos funcionários do metrô imediatamente chamou a atenção. Como ele conseguira fazê-la se fotografar ali era proibido? Com um inglês ainda limitado, tentou explicar a história.

Os professores associaram o humor da imagem ao trabalho do britânico Martin Parr. Conversaram entre eles, observaram novamente as fotografias e finalmente deram o veredito.

Não havia vaga.

Luiz ouviu a frase uma vez. Depois outra. E mais uma. O primeiro ano estava lotado.

Enquanto recolhia as ampliações, veio a conclusão da banca: como haviam gostado muito de seu trabalho, havia uma alternativa.

Ele não entraria no primeiro ano.

Entraria diretamente no segundo.

“Eu acho que ninguém foi mais feliz do que eu naquele dia em Londres”, lembra.

A fotografia havia lhe economizado um ano de escola.

Mas aquela não era a primeira vez que uma imagem provocava uma reviravolta inesperada na vida de Luiz Bhering.

Uma estação congelada no tempo

Dez anos antes de Londres, quando a fotografia ainda era uma descoberta, Luiz ganhou da mãe uma câmera Pentax. Tinha 13 anos e vivia em Niterói, numa cidade que começava a sentir as transformações provocadas pela recém-inaugurada Ponte Rio-Niterói.

A bicicleta virou seu meio de exploração. Saía sem grandes planos, inventando destinos e procurando assuntos para fotografar.

Num desses passeios, pedalou até o Barreto, bairro entre Niterói e São Gonçalo. Ali encontrou uma antiga estação ferroviária fechada.

Prendeu a bicicleta com uma corrente, pulou o muro e entrou.

A estação parecia abandonada no meio do tempo. Havia vagões parados, galpões, prédios e antigas instalações ferroviárias. Para um adolescente que começava a descobrir o mundo através de uma câmera, aquilo parecia um território inteiro à espera de imagens.

Luiz passou horas fotografando.

Levava três filmes de slide, tudo o que tinha, e gastou os três.

Uma semana depois, com o material revelado, montou o projetor em casa e chamou sua primeira espectadora: a mãe.

A reação inicial não foi exatamente de entusiasmo. Ao descobrir onde o filho havia se metido sozinho, ela lhe deu uma bronca. Luiz tinha 13 anos, atravessara a cidade de bicicleta e ainda pulara o muro de uma estação abandonada.

Mesmo assim, continuaram vendo os slides.

Até aparecer a fotografia de uma casa.

Era uma construção residencial bonita, situada dentro da área ferroviária. Luiz havia fotografado porque aquela casa destoava das demais instalações.

Sua mãe começou a chorar.

Não um choro discreto. Chorava copiosamente diante da projeção.

Luiz não entendia.

Foi quando ela explicou:

— Meu filho, eu morei nessa casa.

O avô materno de Luiz havia saído de Minas Gerais para trabalhar como gerente daquela estação. A família se mudou para Niterói e viveu durante cerca de oito anos justamente na casa que, décadas depois, o neto encontraria por acaso atrás de um muro.

Luiz não conhecia aquela história. Talvez tivesse ouvido alguma referência à origem ferroviária da família, admite, mas nada que tivesse permanecido conscientemente em sua memória.

A fotografia fez essa memória retornar.

“Eu vi ali, de alguma maneira, o poder da fotografia de emocionar as pessoas.”

As imagens da estação acabariam tendo um destino igualmente carregado de memória. Quando Luiz deixou o Brasil, seus negativos, slides e outros pertences ficaram com a mãe. Anos depois, o lugar onde o material estava guardado foi roubado. As fotografias desapareceram.

Restou a história.

E talvez por isso ela continue tão presente.

Antes de Londres

Depois daquela primeira câmera, a fotografia avançou rapidamente sobre a adolescência de Luiz. Aos 15 anos, ele já havia montado um laboratório em casa e revelava suas próprias fotografias em preto e branco.

Durante algum tempo, porém, fotografar permaneceu como atividade amadora. Ele saía com amigos, fazia ensaios, experimentava.

A aproximação profissional veio como assistente de fotógrafos de publicidade. Trabalhou em dois estúdios em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, carregando tripés e acompanhando uma geração para a qual o aprendizado da profissão acontecia muito mais dentro dos estúdios do que nas escolas.

Era também uma época em que a formação especializada em fotografia ainda era rara no Brasil. Nas conversas com fotógrafos, nos bares e na vida cultural de Santa Teresa, começou a amadurecer a ideia de estudar fora.

Londres apareceu como destino.

Na City Polytechnic, encontrou aquilo que procurava: uma escola de arte na qual a fotografia era entendida não apenas como técnica ou profissão, mas como forma de expressão.

A estrutura impressionava. Havia laboratórios equipados, dezenas de ampliadores e câmeras que os estudantes podiam retirar para trabalhar durante o fim de semana. Luiz lembra de sair da escola numa sexta-feira carregando uma Hasselblad emprestada e devolvê-la na segunda.

Para quem pouco antes havia passado meses economizando para conseguir comprar uma Nikon usada, era outro mundo.

Foram dois anos de formação que ajudaram a consolidar uma direção que já aparecia desde a adolescência: mais do que executar trabalhos fotográficos, Luiz queria construir uma fotografia autoral.

Série "Baía de Guanabara"
Série "Baía de Guanabara"

Oito anos em Madrid

Ao terminar o curso, trocou Londres pela Espanha. Foi viver em Madrid com Suzana, sua primeira mulher, e permaneceu oito anos no país.

Foi ali que viveu talvez o período mais intenso da fotografia como ofício.

Um dos primeiros trabalhos foi em uma revista corporativa. Luiz fazia praticamente tudo relacionado à imagem. Fotografava moda, futebol, acontecimentos sociais e qualquer outra pauta necessária para preencher uma publicação de 60 ou 70 páginas.

Durante um ano, fotografou quase sem parar.

“Eu dava tiro para tudo que era lado.”

O ritmo era exaustivo, mas acabou funcionando como outra escola. A revista lhe abriu portas, deu acesso a ambientes que dificilmente conheceria e o obrigou a enfrentar assuntos fotográficos completamente diferentes.

Depois veio um trabalho que guarda entre as melhores experiências profissionais daquele período. Luiz passou a colaborar com a editora responsável por especiais anuais de turismo ligados à revista ¡Hola!. Viajava pelas comunidades autônomas e províncias espanholas e podia permanecer semanas em cada lugar.

Era uma condição rara para um fotógrafo: tempo.

Em vez de chegar, fotografar e partir, podia observar a região, percorrer cidades, descobrir paisagens e esperar pelas imagens.

Trabalhou em quatro desses especiais.

Paralelamente, nunca abandonou o trabalho pessoal. Fotografava Madrid, festas populares, celebrações religiosas e pagãs e as viagens que fazia pelo país.

As imagens começaram a ocupar as paredes dos bares do centro histórico madrilenho.

A primeira exposição aconteceu no Boca del Lobo. Luiz produzia pessoalmente as ampliações em preto e branco e as colocava em molduras simples. O responsável pelo bar sugeriu que colocasse preço nas obras.

Na primeira noite, vendeu tudo.

Vieram outras exposições. Mais de dez, calcula. E a venda das fotografias passou inclusive a complementar sua renda.

Sem perceber, Luiz começava a experimentar uma possibilidade que anos depois seria central em sua trajetória: viver não apenas de produzir fotografias para alguém, mas também de vender o próprio trabalho.

Entre ganhar dinheiro e fotografar

A volta ao Brasil foi determinada, em boa medida, pela família.

Filho único, Luiz acompanhava de longe o envelhecimento da mãe, com quem sempre manteve uma relação muito próxima. Ela o havia incentivado a sair do país, jamais tentando impedir suas escolhas. Quando percebeu que ela estava envelhecendo sozinha, decidiu retornar.

Havia, porém, uma pergunta prática: como sobreviver?

Os relatos dos amigos fotógrafos no Brasil não eram animadores. O mercado de publicidade atravessava transformações profundas e antigos estúdios estavam fechando.

Antes de deixar Madrid, Luiz fez durante um ano um curso de comércio exterior na Câmara de Comércio. Chegou ao Brasil trazendo amostras de produtos espanhóis e encontrou uma oportunidade no porcelanato, ainda novidade no mercado brasileiro.

O negócio funcionou.

Durante oito ou nove anos, fotografia e atividade empresarial conviveram. O comércio dava estabilidade. A fotografia dava sentido.

O conflito cresceu.

“Eu vivi durante um período um conflito interno muito grande entre fazer o que era melhor para ganhar dinheiro ou fazer o que eu gostava.”

Mesmo durante os anos de empresário, Luiz não parou de fotografar. Um dos temas que ganhou força foi a flora, interesse que havia começado ainda em Madrid e que prosseguiu no Jardim Botânico, na Floresta da Tijuca e nos jardins criados por Roberto Burle Marx.

Até que decidiu abandonar os negócios.

Se era para enfrentar dificuldades, preferia enfrentá-las fazendo aquilo que queria.

O Rio dentro de casa

Série "Baía de Guanabara"
Série "Baía de Guanabara"
Série "Baía de Guanabara"

A transição não aconteceu de uma vez.

Em determinado momento, Luiz viu numa loja painéis fotográficos em canvas usados em decoração. Eram imagens de inspiração oriental, com motivos budistas e referências zen.

Pensou que poderia fazer algo semelhante com o Rio de Janeiro.

Nasceu o Rio in Home.

A experiência no mercado de decoração ajudou. Luiz conhecia arquitetos e lojistas e começou a produzir painéis com paisagens cariocas, deixando trabalhos em consignação em lojas.

O projeto tinha uma origem assumidamente comercial. Era necessário pagar contas e sustentar a família. Mas abriu uma porta para outra fotografia.

Conforme o trabalho se consolidava, o olhar sobre o Rio deixava de ser apenas decorativo.

Série "Baía de Guanabara"

A cidade transformou-se em investigação.

E a Baía de Guanabara passou a ocupar um lugar permanente nessa produção.

Uma baía interminável

Série "Baía de Guanabara"
Série "Baía de Guanabara"
Série "Baía de Guanabara"

Luiz não trabalha necessariamente com projetos que começam e terminam.

Prefere séries que permanecem abertas.

A Baía de Guanabara é uma delas.

Fotografá-la significou navegar, acompanhar biólogos, chegar ao fundo da baía, observar suas ilhas e, ao mesmo tempo, confrontar a beleza da paisagem com décadas de ocupação desordenada e degradação ambiental.

Para Luiz, há uma espécie de contradição permanente ali: um dos cenários naturais mais extraordinários do país convivendo com esgoto, instalações industriais e intervenções que transformaram radicalmente partes da paisagem.

É também uma relação afetiva.

Morando em Niterói, Luiz observa o Rio do outro lado da água. Gosta de lembrar que muitos artistas que construíram a iconografia histórica da cidade também atravessaram a baía para encontrar, de Niterói, o ponto de vista capaz de reunir as montanhas cariocas.

“Se o Rio de Janeiro não fosse cidade, ele seria um parque nacional hoje.”

Da baía surgiria outra de suas séries permanentes.

Os pescadores.

Às quatro da manhã, em Itaipu

Por volta de 2016, Luiz começou a acompanhar os pescadores artesanais da colônia Z7, em Itaipu, Niterói.

Chegava antes do amanhecer.

Às quatro da manhã, pegava a bicicleta e seguia para a praia. Aos poucos, aproximou-se da comunidade, saiu de barco, observou o trabalho e aprendeu seus códigos.

Encontrou ali práticas transmitidas por gerações.

Canoas escavadas em um único tronco ainda entram no mar. Técnicas de pesca permanecem ligadas a uma compreensão do ambiente construída muito antes de expressões como sustentabilidade ou preservação ambiental se tornarem correntes.

Para Luiz, existe entre esses pescadores uma sabedoria prática: preservar não é uma abstração. É condição para que haja peixe amanhã.

A série cresceu.

Em 2018, cerca de 40 fotografias foram apresentadas em uma grande exposição no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro, com apoio relacionado ao trabalho desenvolvido em Itaipu.

Depois, Luiz ampliou o território. Fotografou comunidades em Paraty, Angra dos Reis, Búzios e Salvador. Com apoio de pesquisadores ligados à biologia marinha, começou a construir um levantamento mais amplo da pesca artesanal brasileira.

O projeto previa livro e exposições itinerantes e deveria alcançar também Santa Catarina, Ceará, Maranhão e comunidades indígenas da Amazônia.

Não foi concluído.

As fotografias feitas, entretanto, permaneceram.

Como permaneceu o interesse.

Onde chega, Luiz ainda procura saber onde estão os pescadores.

Fotografias que não acabam

O mesmo acontece com a flora. E com a Baía de Guanabara. E, mais recentemente, com os personagens e manifestações da cultura carioca.

Luiz fotografa árvores, rodas de samba, carnaval, praias, pescadores e tipos humanos encontrados pelas ruas. Não parece interessado em colocar um ponto final nessas séries.

Série "Flora Brasilis"
Série "Flora Brasilis"

Elas acompanham sua vida.

Pouco antes desta entrevista, estava fotografando a florada de uma árvore conhecida como xixá-fedorento. Pouco depois, preparava as malas para uma experiência completamente diferente: uma viagem ao Xingu ao lado de Renato Soares, fotógrafo conhecido pelo trabalho dedicado aos povos indígenas.

Luiz iria acompanhar os dias anteriores ao Quarup, durante a preparação de uma expedição.

Quase cinco décadas depois daquela bicicleta pelas ruas de Niterói, continua existindo nele algo do menino que saiu de casa com três filmes sem saber exatamente o que encontraria.

Talvez seja essa uma das linhas invisíveis de sua fotografia.

Série "Flora Brasilis"
Série "Flora Brasilis"

Primeiro vem a curiosidade.

Depois, o encontro.

E só então se descobre o que uma fotografia pode guardar.

Aos 13 anos, Luiz Bhering pulou o muro de uma estação abandonada e, sem saber, fotografou a infância da própria mãe.

Dez anos depois, diante de dois funcionários do metrô londrino que mandavam guardar a câmera, resolveu fazer uma pergunta a mais.

Conseguiu a fotografia.

E ganhou um ano inteiro de sua vida.

Entre uma imagem e outra existe uma trajetória construída por viagens, trabalhos comerciais, laboratórios em preto e branco, exposições, paisagens, pescadores, árvores e cidades. Mas também existe algo que talvez seja mais difícil de ensinar numa escola de fotografia: a disposição para perceber quando o acaso coloca uma imagem diante da câmera.

E não deixá-la passar.


Luiz Bhering em ação. (Crédito da foto: Karla Christina)

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