Atravessar o mundo sem se afastar das pessoas
De greves operárias ao sertão do cangaço, dos campos de futebol às aldeias indígenas, o olhar de Ricardo Beliel acompanhou ditaduras, guerras silenciosas e memórias esquecidas para transformar fotografia em testemunho humano.
Na sua casa no Rio de Janeiro, cercado por livros, fotografias e lembranças de viagens, Ricardo Beliel fala como quem ainda está em movimento. A conversa começa em um presente tranquilo, mas rapidamente atravessa décadas, países, ditaduras, redações, sertões e campos de futebol. Porque a trajetória de Beliel nunca coube apenas dentro da fotografia. Sua câmera sempre pareceu interessada em algo maior: a condição humana.
A fotografia entrou em sua vida antes mesmo de virar profissão. Filho de professora de história e de um jornalista, cresceu em uma casa onde cultura não era evento especial, mas parte da rotina. Cinema europeu, debates políticos, arte, música e literatura circulavam naturalmente entre as paredes da infância. No Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, ainda jovem, estudou gravura com nomes ligados ao concretismo e ao neoconcretismo. Nos corredores do MAM, cruzava com cineastas, músicos e artistas que moldavam a cultura brasileira.
A câmera apareceu quase por acaso. O irmão montou um laboratório fotográfico em casa. Beliel começou a usar os equipamentos, aprender processos químicos na prática e observar fotógrafos mais experientes que frequentavam o espaço. A técnica veio pela convivência, não pela obsessão tecnológica.
Talvez por isso ele nunca tenha sido o fotógrafo fascinado pela câmera em si.
“Eu utilizo a câmera para o que desejo produzir em termos de imagem”, diz.




Antes do fotojornalismo, vieram os palcos. Shows, ensaios musicais e retratos de artistas. A primeira pessoa que pagou por uma fotografia sua foi o músico Egberto Gismonti. Beliel fotografou um show no Teatro Opinião, no Rio, em 1973, e, ao entregar as imagens como presente, acabou descobrindo que aquilo também poderia ser profissão.
Vieram então trabalhos ligados à música brasileira dos anos 1970. Fotografou ensaios de Caetano Veloso e Gilberto Gil no retorno dos artistas ao Brasil após o exílio em Londres. Frequentava um Rio de Janeiro onde cultura e política caminhavam juntas.
Mas havia inquietação demais para permanecer apenas nos bastidores artísticos.
Nos anos 1970, Beliel passou pela Argentina em meio às tensões políticas que antecederam o golpe militar. Depois, atravessou para o Chile durante o regime de Augusto Pinochet. Tinha pouco mais de 20 anos. Levava na memória endereços de exilados e fazia contatos entre famílias separadas pela repressão.
Em Santiago, viu pessoas sendo metralhadas nas ruas.
A experiência mudou definitivamente sua relação com o jornalismo.
Ao voltar para o Brasil, decidiu que o fotojornalismo seria seu caminho. Bateu na porta do jornal O Globo sem currículo tradicional, sem aparência convencional e sem experiência formal. Acabou contratado.



Nas redações dos anos 1970, fotógrafos ainda usavam terno e gravata. Beliel odiava aquilo. Subia morros, cobria treinos de futebol e atravessava cenas de violência usando um paletó de veludo cotelê sob o calor do Rio de Janeiro. Aos poucos, ajudou a romper aquele protocolo antiquado.
O jornalismo o transformou num fotógrafo de tudo. Cultura, política, violência urbana, esporte. Naquela época, o fotógrafo precisava circular por todas as editorias. E Beliel gostava exatamente disso: da variedade humana.
Passou por O Globo, Revista Manchete, Veja e depois encontrou um território onde se tornaria referência: o futebol.
Nos gramados, construiu imagens que ajudaram a definir visualmente uma era do esporte brasileiro. Fotografava não apenas o jogo, mas a tensão emocional em torno dele. A rivalidade, o drama, a teatralidade.
Foi também no futebol que aprendeu algo essencial sobre fotografia: o instante não avisa quando vai acontecer.

Entre milhares de imagens esportivas, uma se tornou emblemática: o encontro entre Bebeto e Romário em uma capa histórica da revista Placar. Uma fotografia que condensava rivalidade, carisma e um momento específico do futebol brasileiro.

Mas Beliel nunca permaneceu tempo demais no conforto.
Em 1980, deixou O Globo para acompanhar as greves metalúrgicas em São Bernardo do Campo. Ali percebeu novamente o jornalismo como testemunho da história em construção. Mais tarde, aprofundou reportagens ambientais e passou anos trabalhando entre Amazônia, populações indígenas e conflitos territoriais.




Participou inclusive de uma expedição de contato com indígenas isolados na Amazônia. Uma experiência marcada por tensão extrema. Integrantes de expedições anteriores haviam sido mortos na região. Décadas depois, aquele mesmo território ficaria conhecido mundialmente pelo assassinato do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira.




Beliel passou meses dentro da floresta acompanhando aquela realidade.
Ao longo da carreira, percebeu a transformação radical do próprio fotojornalismo. Viveu o auge das grandes revistas internacionais, quando reportagens podiam levar meses de produção e render publicações simultâneas em vários países. Trabalhou em Paris ligado a uma agência especializada em grandes narrativas fotográficas internacionais, produzindo histórias na África e na América Latina.


Também assistiu ao colapso desse modelo com a chegada da internet.
Mas talvez nenhum trabalho resuma tão profundamente sua maneira de olhar o Brasil quanto o livro Memórias Sangradas.
A obra nasceu de uma reportagem feita em 2007 durante uma viagem pelo Rio São Francisco. Beliel descobriu que ainda existiam sobreviventes e testemunhas diretas do cangaço. Voltou decidido a transformar aquilo num projeto de longa duração.
Foram onze viagens pelo sertão nordestino.
Beliel entrevistou ex-cangaceiros, familiares, coiteiros, moradores de pequenas vilas e pessoas que participaram de episódios históricos ligados a Lampião e Maria Bonita. Dormiu em cidades pequenas, pesquisou em arquivos históricos e construiu uma narrativa que mistura memória oral, investigação histórica e fotografia documental.



O livro recebeu o nome “Memórias Sangradas” por dois motivos. As histórias eram viscerais, abertas, dolorosas. E “sangrar” também era o nome dado ao método usado para executar inimigos no cangaço.
Beliel não queria apenas registrar rostos envelhecidos.
Queria devolver importância histórica àquelas pessoas.
Muitos dos personagens retratados tinham mais de 90 anos. Em uma das casas, quando ele retornou depois do lançamento do livro, encontrou a obra colocada ao lado de santos em um pequeno altar doméstico. Não como objeto decorativo, mas como reconhecimento de existência.
“Eles não eram testemunhas da história. Eles eram a história”, afirma.

O que impressiona em Ricardo Beliel não é apenas a extensão da carreira. É a coerência entre vida e olhar. Mesmo quando fala sobre fotografia, raramente fala de técnica. Fala de escuta, convivência, política, memória e afeto.
Para ele, fotografar nunca foi colecionar imagens bonitas.
Foi uma maneira de atravessar o mundo sem se afastar das pessoas.

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