Londres, 2010: quando a rua colocou uma história diante do fotógrafo
Ao caminhar sem rumo pela capital inglesa, Nilo Biazzetto Neto encontrou um grupo de Teddy Boys reunido diante de bares. Ficou. Fotografou. Então, pela mesma rua, apareceram algumas “freiras”. O encontro improvável transformou uma tarde londrina em um ensaio
Nilo Biazzetto Neto gosta de se perder.
Não exatamente de não saber onde está, mas de andar sem que o caminho esteja completamente decidido. Sair, caminhar, olhar. Dobrar uma esquina porque alguma coisa chamou a atenção. Permanecer em um lugar um pouco mais do que o necessário. Esperar.
Foi assim em Londres.
Era 2010. Nilo estava na cidade com a família, mas havia também uma espécie de viagem paralela acontecendo. Naquele período, envolvido com uma galeria de fotografia em Curitiba, queria conhecer espaços londrinos, observar exposições, entender como as galerias trabalhavam com impressão e venda de fotografias, como organizavam mapotecas, como apresentavam seus acervos.
Mas havia o outro Nilo, aquele que dificilmente conseguiria atravessar uma cidade apenas indo de um ponto a outro.
“Eu sou um fotógrafo de rua e andarilho, então eu me perco. Saio me perdendo nas ruas para fotografar, para encontrar as histórias. Ou as histórias me encontrarem.”
Naquele dia, uma delas o encontrou.



Em algum momento da caminhada, surgiram homens que pareciam pertencer a outro tempo. Os cabelos cuidadosamente moldados em grandes topetes, costeletas compridas, tatuagens, casacos e roupas que remetiam a uma Inglaterra que já havia desaparecido das ruas havia décadas.
Nilo não sabia exatamente quem eram.
Apenas percebeu que precisava parar.
Os homens de outro tempo
Eles estavam espalhados entre duas esquinas, próximos a dois bares. Bebiam cerveja, conversavam, reencontravam amigos. Nilo aproximou-se.
Começou a fotografar.
Só depois entenderia que havia encontrado Teddy Boys, integrantes de uma subcultura surgida em Londres no início dos anos 1950 e frequentemente apontada como uma das primeiras grandes culturas juvenis britânicas. Formada principalmente por jovens da classe trabalhadora, ela transformou em identidade própria elementos da moda neoeduardiana: casacos longos, muitas vezes com golas de veludo, calças estreitas, sapatos de sola grossa e cabelos modelados em topetes.
O nome também vinha daquela referência. “Teddy” era uma abreviação de Edward, numa alusão à era do rei Edward VII. A estética, inicialmente recuperada no pós-guerra por alfaiates londrinos, acabaria apropriada por jovens trabalhadores e associada a uma nova maneira de marcar presença na cidade.
Mais tarde, rock’n’roll e Teddy Boys se tornariam quase inseparáveis.



Nada disso, porém, estava na cabeça de Nilo quando levantou a câmera.
Naquele instante havia apenas aquelas figuras diante dele.
“Depois você vai entender o que era aquilo”, conta.
Perguntou o que estavam fazendo. A resposta era simples: eram amigos, estavam se encontrando, bebendo. Um deles chegou a colocar uma cerveja na mão do fotógrafo.
Nilo ficou.
Conversou.
Fotografou.
Mais do que compreender sociologicamente aquele grupo, queria viver o que estava acontecendo diante dele. As roupas, os gestos, os cabelos, as tatuagens, as conversas, a cerveja passando de mão em mão.
A rua tinha lhe oferecido personagens.
Mas ainda faltava acontecer a cena.
Então vieram as freiras
Nilo estava entre os Teddy Boys quando olhou para a rua.
Um pequeno grupo de mulheres vinha descendo em sua direção.
Vestiam-se como freiras.
De um lado, homens com topetes, costeletas e roupas inspiradas na Inglaterra antiga. Do outro, mulheres de hábito caminhando pela rua.
E, entre eles, um fotógrafo.
As duas partes daquela cena começaram a se aproximar.
Nilo fotografou.



As mulheres não eram religiosas. Eram atrizes. Ele descobriria depois, observando melhor as próprias imagens, que carregavam nas mãos o programa de uma peça de teatro.
Mas talvez isso importe menos do que aquilo que aconteceu durante aqueles minutos.
Porque a rua havia produzido uma espécie de ficção sem roteiro.
Os Teddy Boys estavam ali porque haviam marcado um encontro. As atrizes passavam por acaso. Nilo estava ali porque decidira caminhar. Nenhum deles havia combinado participar da mesma história.
Mesmo assim, por alguns instantes, todos ocuparam o mesmo palco.
“É como um teatro, como um filme”, diz o fotógrafo ao recordar a cena.
O encontro passou a ser o centro da narrativa.
Há olhares, aproximações, estranhamentos. Há o contraste entre as roupas. Há quem observe a cena de fora. Há quem ria.
E há Nilo tentando permanecer dentro daquele pequeno acontecimento pelo maior tempo possível.
“Fiquei o máximo que eu pudesse ali.”
Até que as cervejas terminaram de circular e as falsas freiras seguiram seu caminho.
A rua voltou a ser apenas rua.
Uma história que demorou para aparecer



As fotografias viajaram para o Brasil com Nilo, mas a história não terminou em Londres.
Talvez tenha apenas começado ali.
A primeira seleção foi mostrada publicamente cinco anos depois. Em 2015, Nilo apresentou 13 fotografias da série em um festival em Ouro Preto (MG). Na época, o conjunto era tratado como Londres 2010.
Os anos passaram.
Em 2020, quando as imagens completariam uma década, ele voltou ao arquivo. A intenção era produzir uma nova exposição, impressões ou talvez um livro. A pandemia de Covid-19 interrompeu os planos, mas provocou outro movimento: Nilo começou a rever tudo.
Fotografia por fotografia.
Contato por contato.
Sequência por sequência.
Daquela revisão nasceu um conjunto muito maior: cerca de 50 imagens, boa parte delas ainda desconhecida do público.
E algo começou a mudar.
Durante muito tempo, Nilo concentrou a edição nos Teddy Boys e nas falsas freiras. As pessoas que apareciam em volta eram quase interferências. Elementos que deveriam ser eliminados para que os personagens principais permanecessem limpos dentro da narrativa.
Anos depois, percebeu justamente o contrário.
Aquelas pessoas eram necessárias.
Elas olhavam.
Sorriam.
Acompanhavam o encontro.
E, quando Nilo passou a imaginar aquelas fotografias como uma sequência cinematográfica, entendeu que havia ali não apenas personagens, mas também uma plateia.
“Eu comecei a entender que o público que estava vendo, que tem um público que não estava vestido daquele jeito e que está acompanhando, e está rindo, e está vendo. Aí eu entendi que era uma peça de teatro, ou uma cena de um filme.”
As pessoas que antes ele tentava retirar da história passaram a fazer parte dela.
A edição cresceu.
A narrativa também.


O tempo da fotografia
Há uma segunda história escondida dentro de Londres 2010.
Ela fala sobre o tempo necessário para compreender aquilo que se fotografou.
Nilo começou na fotografia em 1994, quando cursava Publicidade e Propaganda. Descobriu a câmera dentro da universidade, trabalhou durante cerca de duas décadas no mercado publicitário e, paralelamente, construiu uma trajetória ligada ao ensino, à produção cultural e ao trabalho autoral.
Sua relação com a fotografia de rua, porém, remonta ao início.
Antes dos trabalhos comerciais, das aulas, das exposições ou dos livros, havia uma câmera e a vontade de caminhar.
“Eu comecei com uma câmera na mão fotografando a rua.”
Talvez por isso aquela tarde londrina permaneça tão próxima da maneira como ele entende a fotografia.
Não houve produção.
Não houve personagens escolhidos previamente.
Não houve roteiro.
Houve disponibilidade.
E houve tempo.
Durante anos, o próprio fotógrafo mudou diante das mesmas imagens. Fotografias que pareciam secundárias ganharam importância. Personagens periféricos entraram na narrativa. A história que parecia ser sobre Teddy Boys tornou-se maior do que eles.
Por isso Nilo hoje evita até mesmo definir o trabalho apenas pelo nome da tribo que encontrou naquele dia.
Durante algum tempo a série chegou a ser chamada de Ted’s. Agora, enquanto trabalha na edição do futuro livro, prefere retornar ao nome mais aberto: Londres 2010.
O título definitivo está guardado.
“Eu fui entendendo que não é Ted’s, porque eles não são a figura central do trabalho”, explica.
O centro é o encontro.
Nilo costuma dizer que não está interessado apenas em produzir boas fotografias.
Quer contar histórias.
É uma diferença importante para compreender o que aconteceu em Londres. Uma das imagens pode funcionar sozinha. Outra pode ser pendurada numa parede. Algumas se tornaram mais conhecidas do que outras.
Mas nenhuma delas, isoladamente, contém tudo aquilo que Nilo acredita ter encontrado naquela rua.
A força está na sequência.
Nos homens.
Nas falsas freiras.
Nas pessoas olhando.
Na cerveja.
Nos gestos.
Na coincidência de todos estarem ali.
Para Nilo, uma fotografia pode ser um haicai. Um ensaio, porém, aproxima-se de um poema.

Talvez Londres 2010 seja exatamente isso: uma pequena história fotográfica que levou poucos minutos para acontecer e mais de uma década para revelar ao próprio autor tudo o que carregava.
Naquele dia, Nilo Biazzetto Neto saiu para caminhar por Londres.
Não sabia exatamente o que procurava.
Dobrou algumas esquinas.
Encontrou homens vestidos como se os anos 1950 ainda estivessem acontecendo.
Parou.
Levantou a câmera.
E esperou.
Então, pela rua, vieram as freiras.
A história estava pronta.
Faltava apenas fotografá-la.
