A luz invisível que redesenha os Andes

Entre o infravermelho e o light painting, Renan Cepeda constrói, ao longo de nove viagens, um Peru que oscila entre documento e fabulação

A luz invisível que redesenha os Andes

Ele não vê exatamente o que fotografa. Ou, pelo menos, não da forma como estamos acostumados a ver. “Eu registro o invisível”, diz Renan Cepeda, com a tranquilidade de quem passou décadas tentando, justamente, se afastar do óbvio. No ensaio Puna, iniciado em 2009 e maturado ao longo de anos de idas e vindas ao Peru, a fotografia deixa de ser testemunho para se tornar interpretação radical da paisagem andina.

A gênese do trabalho não está na geografia, mas na linguagem. Cepeda já vinha desenvolvendo, desde o início dos anos 2000, uma pesquisa autoral baseada em duas técnicas: a fotografia infravermelha e o light painting. Primeiro veio a técnica, depois o território. Uma escolha deliberada, quase obsessiva, de construir uma assinatura visual num campo em que a identidade do fotógrafo nem sempre é evidente.

“Existe uma vaidade do artista”, admite. “Você quer ser reconhecido, quer fazer algo que não foi feito.”

Essa busca nasce, paradoxalmente, de um passado de rigor e limites. Formado no fotojornalismo dos anos 1980, com passagem pelo Jornal do Brasil e colaboração com grandes publicações, Cepeda aprendeu a fotografar sob pauta, sob linguagem editorial, sob regras. Era preciso sintetizar histórias em imagens, mas raramente com liberdade total de estilo.

O deslocamento começa no fim dos anos 1990, quando as redações encolhem e o digital avança. Cepeda migra para a fotografia de arte, mantendo, no entanto, um impulso essencialmente reporteiro. É esse impulso que reaparece em Puna, mesmo quando a estética parece distante do documental.

A chegada ao Peru acontece em cadeia de coincidências que, como o próprio artista sugere, talvez não sejam coincidências. Um prêmio internacional projeta seu trabalho. Um convite para Lima o coloca diante de curadores e artistas locais. Um livro, recebido de presente, narra expedições fotográficas pelos Andes. Uma conversa com outro fotógrafo revela uma peregrinação a quase 5 mil metros de altitude.

E então, quase sem intervalo para planejamento, ele decide ir.

A primeira viagem, em 2009, é também uma imersão física. Subidas longas, ar rarefeito, equipamentos pesados. O corpo precisa acompanhar o olhar. Em vilarejos onde o espanhol não chega, Cepeda encontra uma dimensão do Peru pouco visível ao olhar brasileiro. “Nós estamos de costas para o mundo andino”, observa.

Esse estranhamento é central no ensaio. Puna não tenta domesticar a paisagem. Pelo contrário, enfatiza sua densidade simbólica, sua escala, sua distância.

Na fotografia infravermelha, Cepeda altera a câmera para captar uma faixa de luz invisível ao olho humano. O resultado é um mundo deslocado: vegetações que brilham, céus densos, cores que não existem na experiência cotidiana.

Já no light painting, o processo é quase performático. À noite, com a câmera aberta em longa exposição, o fotógrafo entra na cena e “pinta” com luz aquilo que deseja revelar. O que não é iluminado simplesmente desaparece.

Não há monitoramento em tempo real. Há memória, cálculo, tentativa e erro. Há também uma relação direta com a pintura clássica. Em algumas imagens, a luz recorta rostos e corpos com ecos de Caravaggio ou Rembrandt, mas transportados para o altiplano andino.

O resultado é ambíguo. Ao mesmo tempo em que documenta rituais, paisagens e personagens, Puna constrói uma visualidade que parece suspensa entre o real e o imaginado.

Ao longo de cerca de nove viagens, Cepeda percorre diferentes regiões do Peru, com foco no universo andino e incursões pontuais no deserto costeiro. A série cresce de forma orgânica, alimentada tanto por planejamento quanto por encontros inesperados.

O Peru que emerge dessas escolhas não é turístico. É um território de altitude, de religiosidade intensa, de tradições que atravessam séculos. Peregrinações como a de Qoyllur Rit’i, comunidades isoladas, práticas agrícolas ancestrais e paisagens extremas formam um mosaico que resiste à simplificação.

Há, em Puna, uma tensão constante. De um lado, o olhar do fotojornalista, interessado em investigar, descobrir, registrar. De outro, o artista que manipula luz, cor e tempo para construir uma narrativa própria.

Essa tensão talvez seja o coração do ensaio.

Cepeda não abandona o real. Ele o reinterpreta. Amplifica. Torna visível o que, de outra forma, passaria despercebido. Não se trata de alterar o mundo, mas de revelar suas camadas.

Em um continente que ainda busca construir pontes culturais internas, Puna funciona também como gesto político silencioso. Um brasileiro que olha para os Andes e encontra ali não o exotismo, mas uma continuidade.

O projeto está longe de se encerrar. A Amazônia peruana, o norte do país, outras altitudes e outros territórios ainda fazem parte do horizonte do fotógrafo.

Como o próprio ensaio sugere, Puna não é apenas um lugar. É um estado de percepção.

Um modo de ver que começa onde a luz visível termina.


Mais Renan Cepeda

Instagram

Site