A natureza como fotografia, memória e testemunho
Da primeira viagem ao Pantanal, em 1985, aos encontros com onças-pintadas e à busca pelo raro mico-leão-de-cara-preta, Zig Koch construiu uma trajetória dedicada a registrar a biodiversidade brasileira
No Pantanal, uma onça-pintada pode desaparecer diante dos olhos de quem a observa. Basta mergulhar entre as plantas aquáticas ou se esconder na vegetação das margens dos rios. Às vezes, o fotógrafo passa horas acompanhando seus movimentos sem conseguir uma única imagem. Em outras, a natureza oferece uma cena improvável: uma onça que mergulha para surpreender um jacaré por baixo da água.
Zig Koch conhece bem essas situações. Desde 2012, organiza viagens fotográficas ao Pantanal, onde aprendeu que encontrar um animal é apenas parte do desafio. Para fotografá-lo, é preciso compreender seus hábitos, antecipar movimentos e aceitar que a natureza não obedece aos planos de ninguém.
Essa disposição para esperar acompanha o fotógrafo desde o início da carreira. No litoral do Paraná, passou aproximadamente um ano e meio envolvido nas tentativas de registrar o mico-leão-de-cara-preta, um dos primatas mais ameaçados do Brasil.
A espécie, descrita pela ciência no início dos anos 1990, vive em áreas restritas de Mata Atlântica no Paraná e no sul de São Paulo. Pequeno, raro e difícil de localizar, o animal se tornou um desafio para pesquisadores e fotógrafos.
A oportunidade de Koch surgiu quando biólogos conseguiram negociar a entrega de um exemplar mantido em cativeiro por moradores da região. Durante a soltura, ele finalmente pôde fotografá-lo na floresta. Não eram as primeiras imagens da espécie, mas estavam entre os registros pioneiros que realizou do animal em ambiente natural.
A experiência ajudou a consolidar uma convicção: fotografar a natureza exige muito mais do que dominar uma câmera. Exige conhecê-la.
Foi uma lição que começou a aprender em 1982, durante um curso de observação de aves ministrado pelo ornitólogo Pedro Scherer Neto. Ali conheceu Haroldo Palo Júnior (1953–2017), fotógrafo, documentarista e naturalista, considerado um dos pioneiros da fotografia de natureza no Brasil. Reconhecido por suas expedições e pelo trabalho de documentação da fauna e das paisagens brasileiras, Haroldo se tornaria amigo de Koch e uma das principais influências de sua trajetória.
As aves ensinaram Koch a perceber relações que passam despercebidas aos olhos menos atentos. Seus comportamentos revelam a presença de insetos, plantas, predadores e as conexões invisíveis que sustentam os ecossistemas. Antes de fotografar, era necessário aprender a observar.

A viagem que mudou uma vida
A fotografia já fazia parte da vida de Zig Koch quando ele trabalhava como arquiteto. Filho de um piloto ligado ao montanhismo e de uma artista plástica, cresceu cercado por viagens, imagens e paisagens naturais. Ainda adolescente, experimentava câmeras de filme. Mais tarde, passou a investir boa parte do salário em equipamentos fotográficos.
Em 1985, uma viagem ao Pantanal com Haroldo Palo Júnior mudou seus planos.
Durante aproximadamente um mês, os dois percorreram a região do Rio Taquari. A expedição teve contratempos, incluindo a malária contraída por Haroldo. Mas também ofereceu experiências que Koch jamais esqueceria.
Uma delas aconteceu durante uma noite de navegação pelo Rio Paraguai, em uma embarcação utilizada para transportar gado. Cercado pela imensidão pantaneira, percebeu que queria dedicar a vida à fotografia.
De volta a Curitiba, começou a comercializar suas imagens. Haroldo o apresentou à KINO Fotoarquivo, em São Paulo, e as fotografias passaram a encontrar compradores. Em determinado momento, recebeu por suas imagens o equivalente a aproximadamente três meses de salário como arquiteto.
Ainda hesitou durante cerca de um ano. Até abandonar o escritório e assumir definitivamente a fotografia como profissão.
Era uma época em que cada disparo tinha um custo. Os filmes ofereciam, em geral, 36 poses, e o resultado só podia ser conhecido depois da revelação. Um erro de exposição poderia comprometer uma imagem que havia exigido dias de viagem.
Para apresentar seu trabalho às revistas, Koch embarcava em ônibus noturnos de Curitiba para São Paulo ou Rio de Janeiro, carregando os cromos originais. Assim, construiu relações com publicações como Geográfica Universal, Manchete, Horizonte Geográfico e Caminhos da Terra.
O arquivo cresceu. Hoje, reúne aproximadamente 100 mil cromos e cerca de 250 mil imagens digitais devidamente tratadas, testemunhos de uma época em que fotografar também significava escolher cuidadosamente o que merecia ser registrado.



As paisagens que desapareceram
Ao longo de quatro décadas, Zig Koch percorreu todos os biomas brasileiros. Fotografou animais, florestas, rios, montanhas e campos naturais. Mas, enquanto construía seu acervo, outra história se desenrolava diante de sua câmera.
A natureza estava mudando.
Quando visitou o Pantanal em 1985, o Rio Taquari ainda permitia deslocamentos que hoje foram comprometidos pelo assoreamento. Koch sequer sabe em que condições se encontra a fazenda onde passou parte daquela temporada.
No Paraná, guarda a lembrança dos Campos Gerais cobertos por extensas áreas de vegetação natural. Boa parte dessa paisagem cedeu espaço à agricultura e à pecuária. Resta apenas uma pequena fração dos campos que conheceu.
A memória familiar também ajuda a dimensionar as transformações. Seu pai contava que, ao sobrevoar o interior paranaense, encontrava áreas tão extensas de floresta que uma eventual pane no avião poderia tornar impossível localizar um lugar para pousar.
Hoje, a paisagem é outra.
A fotografia de Koch adquiriu, assim, um significado que ultrapassa a beleza das imagens. Registros produzidos para revelar a exuberância da natureza brasileira tornaram-se documentos de ambientes profundamente transformados.
Uma fotografia de paisagem pode guardar algo que já não existe. Um rio que mudou de curso. Uma floresta substituída por lavouras. Um campo natural que desapareceu.
É como se seu arquivo contasse duas histórias simultâneas: a de um fotógrafo que percorreu o Brasil e a de um país que se modificou diante de seus olhos.




O tempo de olhar
A carreira de Zig Koch atravessou a transformação da fotografia analógica em digital. Seus trabalhos chegaram a revistas, livros, exposições e instituições culturais.
Teve uma imagem selecionada para a seção Earthview, da National Geographic, e outra reconhecida no concurso internacional Wildlife Photographer of the Year, ligado ao Museu de História Natural de Londres. Fotografias suas também integram a Coleção Pirelli/MASP de Fotografia.
Participou de mais de 20 publicações fotográficas de destaque e criou o selo editorial Olhar Brasileiro, pelo qual lançou livros dedicados às paisagens e à natureza.

Hoje, além de fotografar, compartilha sua experiência em cursos e viagens que prefere chamar de vivências fotográficas. Reúne pequenos grupos, com câmeras profissionais ou celulares, para ensinar algo que considera mais importante do que a tecnologia: a capacidade de perceber a luz, compreender a composição e interpretar aquilo que está diante dos olhos.
A formação em arquitetura ainda influencia sua maneira de trabalhar. Assim como um arquiteto imagina um espaço antes de construí-lo, Koch acredita que uma fotografia começa a existir muito antes do disparo. O enquadramento, a luz e o momento são decisões construídas pela observação.
A facilidade de produzir milhares de imagens digitais não alterou essa convicção. Para ele, fotografar mais não significa necessariamente fotografar melhor.
Talvez essa seja uma das principais lições de sua trajetória. Durante décadas, Zig Koch aprendeu a esperar que a natureza revelasse seus segredos. Agora, suas fotografias também revelam aquilo que o tempo levou embora.
Porque, às vezes, a fotografia não preserva apenas um instante. Preserva a lembrança de um mundo que estamos deixando desaparecer.
