O olhar que se constrói
Entre viagens, ensino e projetos autorais, Milla Jung transformou a experiência em método e fez da fotografia um espaço de investigação, memória e formação.
O primeiro deslocamento foi também o primeiro enquadramento. Aos 14 anos, recém-chegada a Buenos Aires sem falar espanhol e ainda fora da escola, Milla Jung encontrou na câmera um modo de entender o mundo. Caminhar pela cidade, observar as pessoas, registrar o que via. O que começou como uma forma de atravessar o estranhamento acabou se transformando em escolha definitiva. Desde então, a fotografia deixou de ser apenas imagem e passou a ser linguagem, método e forma de estar no mundo.

Nascida em Curitiba, Milla iniciou sua trajetória no fim dos anos 1980, quando fez um curso técnico em fotografia na Argentina. Ao voltar ao Brasil, no início da década seguinte, começou a trabalhar profissionalmente em um momento em que a cena fotográfica local ainda era pequena, mas pulsava. Fotografou eventos importantes, como as primeiras edições do Festival de Teatro de Curitiba, e realizou trabalhos para artistas, entre eles o escultor Ricardo Tod. Ao mesmo tempo, tentou encontrar na faculdade de jornalismo um caminho para aprofundar a relação com a imagem, mas se frustrou com a pouca abertura que existia na época para uma formação voltada à fotografia autoral.
A sensação de que era preciso ir além levou Milla para fora do país novamente. Em Nova York, estudou no International Center of Photography. Por lá, entrou em contato com uma tradição forte do fotojornalismo e da fotografia documental. Para se manter, trabalhou como assistente, dividindo o tempo entre o aprendizado e a prática. A experiência ampliou horizontes, mas ainda faltava algo.

Foi em 1998, em Praga, na República Tcheca, que encontrou a fotografia que procurava. Na escola na qual estudou, o olhar humanista tinha mais importância do que a técnica, e a fotografia era tratada como um processo de investigação pessoal. Aceita como assistente, pôde acompanhar de perto o trabalho dos professores e mergulhar em uma formação mais intensa, baseada na convivência, na crítica e no tempo dedicado ao desenvolvimento de projetos.



De volta ao Brasil no final daquele mesmo ano, Milla iniciou um dos trabalhos mais significativos de sua trajetória. Entre 2000 e 2003, viveu períodos no sul da Bahia, onde desenvolveu um projeto com os indígenas Pataxós. O trabalho resultou em cerca de setenta fotografias e registros sonoros, apresentados em exposições e festivais no Paraná. Mais do que uma série de imagens, foi um processo longo, construído na convivência, no tempo compartilhado e na tentativa de compreender o outro sem pressa.


A experiência fora do país também trouxe a necessidade de criar, em Curitiba, um espaço de formação que não existia. Em 2003, nasceu o Núcleo, escola independente que durante uma década se tornou referência para quem queria estudar fotografia de maneira mais aprofundada. Inspirado nas escolas por onde havia passado, o Núcleo funcionava como lugar de encontro, crítica e troca, reunindo alunos, fotógrafos e professores. Dali saíram muitos dos profissionais que hoje atuam na cidade e em outros centros do país, e vários trabalhos produzidos ali circularam por festivais na América Latina.




Depois de dez anos à frente do espaço, Milla decidiu voltar à universidade. No mestrado em Artes Visuais, pesquisou a obra de Robert Frank, fotógrafo que sempre considerou fundamental para entender a fotografia como experiência e não apenas como registro. No doutorado em práticas artísticas, ampliou o campo de atuação ao estudar projetos ligados às ocupações escolares, aproximando a fotografia de outras formas de intervenção e reflexão.




Hoje, sua produção se aproxima mais do circuito de museus e instituições culturais. Além de desenvolver novos projetos, Milla escreve sobre fotografia e atua como orientadora, acompanhando processos de outros artistas. A formação continua sendo parte essencial de seu percurso, assim como a preocupação com o contexto em que a fotografia é produzida.
Para ela, um dos maiores desafios no Brasil é a falta de continuidade. Existem poucos espaços para trabalhos de longo prazo, pouco incentivo para pesquisa e quase nenhuma política cultural consistente voltada à fotografia. Em um cenário dominado pela velocidade das redes e pela multiplicação de imagens, ela defende a importância de estudar a história da fotografia e de compreender a imagem como linguagem.


Mais do que técnica, Milla fala de responsabilidade. Fotografar, para ela, exige tempo, escuta e intenção. Exige também saber de onde vêm as referências e para onde se quer ir.



Talvez por isso sua trajetória seja marcada por deslocamentos, mas nunca por rupturas. Da adolescente que caminhava por Buenos Aires com uma câmera na mão à professora que hoje orienta novos fotógrafos, permanece a mesma ideia que atravessa todo o seu percurso: a fotografia não é apenas o que se vê, mas o modo como se aprende a olhar.

Conheça o trabalho de Milla Jung