O olhar que atravessa muros
André Cypriano entrou no presídio que deu origem ao Comando Vermelho, viveu em favelas e quilombos e hoje fotografa rochas que parecem seres mitológicos. Tudo em nome da mesma busca: entender o mundo por dentro
Seu estilo, que ele chama de documentarismo autoral, mistura pesquisa, intuição e coragem. Para entender a origem do Comando Vermelho, no começo dos anos 1990, André Cypriano entrou no presídio de Ilha Grande, no litoral do Rio de Janeiro. No antigo Cândido Mendes, desativado em 1994 e hoje reduzido a ruínas na Praia de Dois Rios, teve aval formal das autoridades e, também, dos líderes dos presos para registrar a cadeia apelidada de Caldeirão do Diabo. O nome fazia jus à fama: violência, superlotação, miséria. “O inferno dentro do paraíso."
Berço da facção criminosa que ainda domina o Rio, o presídio abrigou presos políticos durante a ditadura militar. Conta-se que o Comando Vermelho nasceu ali, da convivência entre ladrões e militantes, quando os segundos ensinaram aos primeiros o que significava organização. Cypriano menciona que as paredes do presídio "choravam" devido à umidade que subia da terra e pingava dentro das celas. O ensaio virou o livro Caldeirão do Diabo, lançado em 2001, uma viagem visual ao inferno social brasileiro.



Anos depois, Cypriano voltou sua lente para o outro lado do morro. Em 1999, o fotógrafo passou 30 dias na Rocinha. Com a ajuda de uma assistente, que era moradora da comunidade, produziu o ensaio sobre a maior favela carioca, transformado em livro em 2005. “Documentei grafites que mostram a linguagem entre os traficantes e a polícia. Fotografei paredes pichadas com referências ao Comando Vermelho, que na época era proibido fotografar.”
E não parou ali. Para entender a lógica das comunidades, circulou pelas favelas da Mangueira, Vigário Geral, Jacarezinho, Vidigal e Borel. Passou semanas dentro das dez maiores comunidades cariocas, observando o cotidiano com respeito e paciência de antropólogo. Para acessar essas comunidades, especialmente as controladas pelo Comando Vermelho, ele contou com a ajuda de contatos e precisou de muitas negociações, muitas vezes com a aprovação dos chefes, que indicavam assistentes locais para acompanhá-lo pelas vielas das favelas. Ele também formou pessoas dessas comunidades na fotografia. O resultado foi o livro Favelas do Rio (2003)



No mesmo ano, viajou a Caracas para registrar as favelas da capital da Venezuela, onde a violência das gangues parece não ter fim. Ele as descreve como muito perigosas, mais do que as favelas do Brasil. Existem várias comunidades pequenas e grupos de gangues que se matam uns aos outros. “As favelas de Caracas são muito diferentes de qualquer favela do Brasil. Não tem um líder.” Cypriano participou desse projeto como fotógrafo em um grupo de um "think tank" alemão, que incluía antropólogos e arquitetos, trabalhando em um projeto sobre cultura informal em Caracas. Ele relata que, apesar do perigo, não lhe aconteceu nada, e ele ia com carros grandes, acompanhado de um assistente judoca, entrando nas comunidades sem medo aparente, confiando em sua experiência e instinto.


Mas nem só de favelas vive sua câmera. O fotógrafo também se embrenhou em quilombos brasileiros, onde encontrou desconfiança antes da confiança. “Em algumas comunidades, como a Cafundó em São Paulo, os quilombolas realizavam reuniões para discutir se aceitariam ou não minha presença, baseando-se em experiências anteriores de promessas não cumpridas.” O fotógrafo conta que foi sincero com os moradores, explicando que não daria dinheiro, mas que pagaria por uma cozinheira, um assistente local e sua hospedagem, como se estivesse em um hotel. “Prometi que haveria um livro com suas fotos e que lhes daria as fotografias." Essa sinceridade foi o que o fez ser aceito. Foram 10 comunidades espalhadas pelo Brasil. Depois da convivência, o resultado foi um projeto de peso internacional, exibido em cerca de 275 mostras ao redor do mundo e que resultou no livro Quilombolas: Tradição e Cultura da Resistência (2006).



Outro mergulho foi o universo da capoeira. “Já tinha fotografias de capoeira tiradas na Rocinha, no Caldeirão do Diabo, em quilombolas, em outras favelas e com vendedores de praia de Copacabana. Eu também havia fotografado capoeira em um projeto na Califórnia, com brasileiros na Bay Area, e capoeira de angola em Nova York.” Ele conta que juntou todo esse material, que era em preto e branco, mas expressou o desejo de fazer um projeto contemporâneo e colorido sobre capoeira. Virou livro em 2009, Capoeira: Luta, Dança e Jogo da Liberdade.

Início
André Cypriano nasceu em 1964, em Piracicaba (SP), e se formou em Administração de Empresas. Por alguns anos, o destino parecia ser o escritório. Até se enganar.
Preocupado com o meio ambiente, trabalhou em uma ONG dedicada à proteção das baleias no Brasil. A experiência foi marcante, mas a epifania veio ao mudar-se para os Estados Unidos, em 1990. Em São Francisco, descobriu a fotografia e, nela, a ferramenta que mudaria sua vida.
Logo vieram os prêmios: o primeiro lugar no City College of San Francisco, o World Image Award em Nova York, o Mother Jones International Fund for Documentary Photography, a Bolsa Vitae de Artes, o Caracas Think Tank e o All Roads Photography Program da National Geographic. De administrador da causa animal, tornou-se administrador de mundos visuais.
Hoje, suas imagens já passaram por cerca de duzentas galerias e museus na América, Europa e Ásia. Estão em acervos como o MAM-SP, a Pinacoteca, o MASP (Coleção Pirelli), o Museo del Barrio, em Nova York, e até na Library of Congress, em Washington, que adquiriu 280 de suas fotos. Poucos fotógrafos brasileiros chegaram tão longe com tamanha coerência.
Influenciado por Miguel Rio Branco, Sebastião Salgado, Mário Cravo Neto e Eugene Richards, Cypriano acredita que a fotografia não deve ser neutra. Deve emocionar, provocar, deixar marcas. Seu lado hindu-budista, fruto de longas temporadas em Bali, ensinou-o a olhar o mal de frente e enxergar nele matéria de arte. O fotógrafo associa o misticismo a essa cultura e ao seu próprio trabalho.




Sai a PB, entra a colorida
Até 2006, fotografava apenas em preto e branco. A mudança veio após o nascimento da filha. " Eu nunca mais fotografei preto e branco na minha vida." Passou da Nikon F2 da era analógica para as câmeras digitais e, hoje, muitas vezes usa o celular. "O iPhone segura ampliações de dois metros por um, fácil", garante.
Entre viagens, divide-se entre Nova York e o Rio, mas é na Ilha Grande que encontrou o seu porto seguro. Ali construiu, ao longo de 20 anos, a pousada Asalem e um projeto ainda mais ousado: o museu Anexo.
Na mesma ilha, há uma pedra em forma de feto. Cypriano jura que ela está ali para lembrar que a natureza tem senso de humor, e talvez uma alma. Ele chama esse jogo de formas de Pedras da Imaginação, projeto que já lhe rendeu coleções fotográficas com tartarugas na Mongólia, um camelo no deserto, um urso polar na Antártica, uma lhama no Peru e até um guerreiro romano na Itália. "A ideia é 'iconizar' 14 pedras no mundo", explica.


Pensa em lançar um aplicativo para que qualquer pessoa possa registrar suas próprias descobertas. Quem já batizou uma rocha de Pedra do ET ou Pedra do Balé entende: fotografar pedras é, no fundo, fotografar o imaginário.
Apesar do reconhecimento internacional, Cypriano prefere o caminho artesanal ao glamour do mercado de arte. Vende diretamente, muitas vezes aos hóspedes da pousada, e guarda a primeira cópia de cada obra para si. "É minha forma de fechar o ciclo da imagem", diz.
O que o move? Talvez a mesma energia que o fez, ainda menino, colecionar selos: o prazer de juntar mundos em série, de construir narrativas visuais. Seu documentarismo autoral não é apenas registro, é convivência, troca, presença.
Quem quiser conhecer esse universo pode começar por seus livros ou seguir seus passos no Instagram e no site oficial. Lá, pedras viram fetos, favelas viram resistência e presídios se transformam em metáforas.
Com André Cypriano, até o mais banal, uma pedra largada na beira da praia, vira convite para pensar. E talvez seja isso o que define sua obra: mostrar que o mundo é mais estranho, mais poético e mais emocionante do que imaginamos.
Basta olhar direito, seja através de uma Nikon, de um iPhone, ou, quem sabe, do olhar de uma pedra.
Conheça o trabalho de André Cypriano
Site: https://andrecypriano.com/
Instagram: https://www.instagram.com/andre_cypriano/