O instante dobrado

Os reflexos na fotografia de Gustavo Minas

O instante dobrado
Foto da série Rodoviária.

No começo, era só um motorista de ônibus saindo da rodoviária de Brasília. Pelo menos, era isso que Gustavo Minas achava que estava fotografando naquele dia meio nublado, meio preguiçoso, em que ele caminhava pela plataforma com a missão ordinária de fazer o que sempre faz: olhar para o mundo como se ele estivesse prestes a revelar um segredo. “Quando cheguei em casa e olhei a foto… tava tudo lá. O motorista, claro, mas também a galera inteira da plataforma superior, refletida no vidro”, me contou ele.

A cena que era uma só virou duas, três, talvez quatro. Uma espécie de versão low-cost de um cubo mágico visual. Ali, naquele clique acidentalmente múltiplo, nasceu a chave que abriu a cabeça de Gustavo para um Brasil 360 graus, aquele que aparece quando a cidade se dobra e se revela nos vidros, nas poças, nos ônibus e em qualquer superfície que ouse brilhar.

“Ali entendi que pelos reflexos eu via mais, muito mais”, ele diz, e a frase parece resumir toda a sua obra.

A mulher da Luz

Foto da série Liquid Cities.

Se a rodoviária de Brasília lhe deu um novo olhar, foi a Estação da Luz, em São Paulo, que lhe revelou outra coisa: que a fotografia de rua também depende de coragem. E, às vezes, a coragem vem de quem menos se espera.

A Luz, quem conhece sabe, é bonita, dourada no fim de tarde... e perigosa. “Eu andava com a câmera apontada para baixo, tipo quem esconde uma carta na manga”, lembra. Traficantes, usuários de crack, prostituição, tensão no ar. Uma espécie de zona cinzenta urbana onde tudo parece possível.

Foi então que surgiu ela. Uma personagem que parecia saída de um filme de Almodóvar versão paulista. “Quando ela me viu, se abriu toda: ‘Vem tirar minha foto!’”, ele ri ao lembrar.

E ali Gustavo aprendeu outra chave importante do seu ofício: “Nem todo mundo não quer ser fotografado”.

A frase é meio torta, meio mineira, mas faz sentido: na rua, cada pessoa é um universo, e cada universo reage de um jeito. A mulher da Luz não só deixou, ela pediu. E assim, entre susto, adrenalina e luz de ouro, Gustavo entendeu que também é preciso saber ler gente.

Pardais, milho e café em Cássia

Foto da série Limites.

A terceira história é das mais recentes, e talvez a mais bonita. Daquelas que lembram que o mundo ainda guarda algum tipo de ternura teimosa.

Foi em Cássia, sua terra natal, em pleno 2021 pandêmico, que Gustavo encontrou um senhor distribuindo milho para pardais na porta de casa. Sopro de vida simples num tempo de incerteza.

Só que toda vez que passava um carro, os pardais voavam. E voavam lindamente. Gustavo, claro, se agachou para fotografar esse caos coreografado.

O homem entendeu o gesto, sorriu e continuou jogando milho.

“Devo ter feito mais de 30 fotos”, ele diz.

E quando o fotógrafo já estava quase desistindo, apareceu um vizinho com dificuldade para andar, passos arrastados. O anfitrião entrou, voltou com um café para o amigo. A cena era de uma solidariedade tão cotidiana que quase passa despercebida.

Foi justamente quando ele entregava o café, o carro passou e  lá foram os pardais de novo. Dessa vez, no desenho perfeito.

“É a foto que deu certo”, ele conclui. Mas o que ele não diz, e aí entra minha função, é que talvez tenha dado certo porque havia algo ali que a câmera não faz por si só: paciência. E, no caso daquele mineiro de Cássia, também uma certa fé na gentileza do mundo.

A cidade deserta

Foto da série Festa do Império Kalunga.
Foto da série Festa do Império Kalunga.
Foto da série Festa do Império Kalunga.

Gustavo também carrega no portfólio uma série que nasceu longe dos grandes centros urbanos, em um território onde o tempo parece seguir outro ritmo. Ele conta que chegou ao Território Kalunga, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, por convite de um colega descendente direto da comunidade e responsável por uma agência de viagens para fotógrafos. A proposta era simples e irresistível: viajar como instrutor, conhecer um lugar histórico e ainda fotografar.

Depois disso, ele já esteve lá outras vezes, sempre guiando grupos pelas casas, pelas estradas de terra e, sobretudo, pela Festa do Império Kalunga, uma celebração quase bicentenária que transforma o pequeno vilarejo do Vão das Almas em ponto de encontro de famílias dispersas na mata desde os tempos de fuga dos escravizados. Durante séculos, os Kalunga mantiveram distância uns dos outros para sobreviver. A festa, realizada anualmente em agosto, tornou-se a ocasião para reunir gerações, realizar batizados e casamentos, combinar uniões arranjadas e renovar a fé em Nossa Senhora da Abadia.

Gustavo descreve o evento como um fluxo contínuo de movimento, cor e história viva, um ambiente onde a tradição e a resistência se encontram diante da câmera. A série rendeu prêmios, inclusive o POY Latam 2025, e revelou uma faceta mais documental de seu trabalho, sem que ele abrisse mão daquilo que considera essencial: onde há gente e movimento, há sempre uma fotografia esperando para acontecer.

De Cássia para Londrina, de Londrina para o mundo

Gustavo Gomes nasceu em 1981. Antes de virar Minas, ele foi o jovem que prestou vestibular para jornalismo na UEL e acabou morando cinco anos em Londrina. Foi lá que ele descobriu a mágica da revelação analógica e viu, pela primeira vez, uma fotografia surgir no papel como quem vê uma ideia nascer.

Mas não pense que ele já imaginava uma carreira com câmeras penduradas no pescoço. Longe disso.

“Eu nem sabia que fotografia podia ser profissão”, ele confessa.

Após a faculdade, ficou um tempo perdido no limbo entre querer escrever e não saber onde trabalhar. Morou um ano e meio em Londres trabalhando de garçom. Aquele clássico roteiro do brasileiro que faz do mundo seu estágio.

De volta ao Brasil, entrou como repórter no jornal Agora São Paulo. E ali perdeu o gosto pela literatura. “Escrever industrialmente atrofiou o prazer que eu tinha.”

Para sobreviver, buscou outra forma de expressão. Comprou uma câmera digital. E em 2009 entrou para um curso com Carlos Moreira (1936-2020). Um marco para ele e, sem exagero, para a fotografia brasileira recente.

Foto da série Frente Fria em Havana.
Foto da série Liquid Cities.
Foto da série Marrakech.
Foto da série Istanbul.

Brasília, reflexos e a cidade líquida

Foto da série Liquid Cities.

Em 2014, mudou-se para Brasília. A cidade virou espelho. Literalmente.

Foi ali que ele criou sua série Rodoviária, prêmio POY Latam em 2017, exibida na Bienal de Veneza e em vários continentes depois. Foi ali também que ele percebeu que cada vidro, ônibus ou sombra esconde um universo inteiro.

Publicou livros, ganhou prêmios internacionais, estudou com mestres da Magnum, levou sua fotografia para países como Alemanha e Itália. A relevância do seu trabalho se alimenta de um hábito. Continua fotografando todos os dias, como um ritual.

Foto da série Liquid Cities.

Brasília, diz ele, tem uma luz dura, interminável, seca. O tipo de luz que obriga o fotógrafo a negociar com o sol. Ainda assim, ele sai. Todo dia. Para encontrar algo que talvez só ele veja.

Gustavo Minas fotografa como quem está sempre atento às pequenas fendas da realidade. Os momentos em que o tempo se multiplica, em que o reflexo vira narrativa, em que uma pessoa se abre para a câmera, em que pardais voam no instante exato.

É tímido e discreto, mas, paradoxalmente, vê o mundo como um palco gigantesco que se apresenta para ele em fragmentos.

Não fotografa para roubar cenas, mas para revelar o que estava ali e ninguém notou.

Talvez por isso suas imagens tenham essa qualidade líquida, como se estivessem sempre se transformando, sempre à beira de um outro sentido.

Gustavo não busca grandiosidade. Busca verdade.

E a verdade, ele já aprendeu, aparece nos reflexos.

E às vezes também num prato de milho, num café compartilhado ou num sorriso inesperado na Estação da Luz.

Foto da série Brasília.

Conheça o trabalho de Gustavo Minas

Instagram: https://www.instagram.com/gustavominas/

Site: https://www.gustavominas.com/