O fotógrafo das arquibancadas

Um olhar que transformou a torcida em protagonista: Fábio Soares, com a série Futebol de Campo, revela a intensidade das arquibancadas em preto e branco, guardando na memória visual aquilo que as transmissões não mostram, a alma coletiva que pulsa além das quatro linhas

O fotógrafo das arquibancadas
Foto da série Futebol de Campo: torcedores do Corinthians acompanham a vitória do Timão contra o Vasco, no Pacaembu, que abriu a caminhada até a conquista da Libertadores de 2012

Naquela tarde de maio, o Pacaembu parecia prestes a explodir. O Corinthians enfrentava o Vasco pelas quartas de final da Libertadores de 2012, e a tensão era um animal de olhos arregalados que respirava no cangote dos torcedores. Quando Paulinho marcou o gol da classificação, o estádio virou um campo de lágrimas. Gente se abraçava com desconhecidos, cambaleava de emoção, chorava com o rosto enterrado na camisa suada. Lá no meio, um fotógrafo anônimo registrava aquilo tudo, mas não com os olhos no campo – sua câmera estava voltada para as arquibancadas. Era ali que ele buscava o verdadeiro coração do futebol.

O nome dele é Fábio Soares. Jornalista de formação, fotógrafo por paixão. Desde 2011, ele aponta a lente para onde ninguém mais olha: o rosto suado do torcedor, a coreografia espontânea da massa, o silêncio que vem antes do grito. Seu projeto, chamado Futebol de Campo, uma alusão ao “trabalho de campo” que começava a desaparecer no jornalismo, já esteve presente em aproximadamente 700 jogos, do Maracanã ao Joaquinzão, em Taubaté (SP), passando por estádios improvisados no interior do Brasil. A estética? Preto e branco. O foco? A emoção — pura, crua, efêmera.

Torcida do Corinthians em uma partida contra o arquirrival Palmeiras, no Brasileirão de 2012

Fábio começou sua jornada como jornalista de texto. Escrevia, apurava, fechava pauta. Em 2011, já fora da redação, levou uma câmera a um estádio — uma Sony pequena, simples. Tentou contar a história da torcida em palavras e imagens. Mas não demorou para perceber que, para ele, o texto era trabalho e a fotografia, prazer. A transição foi natural. O blog que criou virou ensaio. As arquibancadas, laboratório.

Hoje, ele carrega na mochila três câmeras da Canon, geralmente alternando entre a 6D Mark II e a R5. A lente preferida do momento é a 35 mm f/1.2, mas ele também usa com frequência a 70–200 mm f/2.8, a 10–18 mm f/4.5, e a 50 mm f/1.2, especialmente nos jogos noturnos, quando o desafio técnico é grande: os refletores iluminam o campo, mas lançam sombras profundas sobre as bancadas – ali, só com lente clara, abertura máxima e sensibilidade apurada se salva alguma coisa. E, às vezes, nem isso.

Santista sofre após a derrota do time para o Fortaleza em 2023, que decretou o rebaixamento do Santos, em plena Vila Belmiro, para a série B do Brasileirão

Mas para Fábio, o clique ideal não depende só de técnica. Depende de momento, de instinto, de escutar com os olhos. “O que me seduz é o que pulsa ao redor do campo – o instante antes do grito, o corpo que some no meio da fumaça, a luz que entra de repente.” Ele busca a emoção crua, a vibração antes do gol, o silêncio denso do quase. Seus retratos não são de futebol – são do ritual que o envolve. Por isso, quase sempre em preto e branco. “É uma tentativa de condensar a experiência. Desvincular do time, do resultado. O foco é o sentimento.”

Cusco FC versus Comerciantes Unidos pelo campeonato peruano de 2024. Foto tirada no estádio Inca Garcilaso de la Vega

A “arenização” dos estádios tornou tudo mais plástico, mais polido – e, por isso mesmo, menos fotogênico. Os alambrados, os placares analógicos, os degraus descascados desaparecem, e com eles vai parte da alma que Fábio quer preservar. “Na nossa adolescência, era uma aventura ir ao estádio. Mesmo quando seu time perdia, a sensação era boa. Acho que tento revisitar isso nas fotos.”

Foto tirada em 2025 na partida pela série D do Brasileirão entre Portuguesa e Pouso Alegre
Palmeiras e Corinthians no Pacaembu, em 2012. Muita rivalidade e emoção

O projeto cresceu. Suas fotos já foram parar na Placar, na Folha de S.Paulo, em revistas internacionais. Em 2017, um marco: foi convidado por uma agência da Inglaterra para participar de uma campanha global da Umbro, marca de material esportivo, justamente por causa de suas imagens de torcedores. Desde então, a fotografia ocupou ainda mais espaço.

A coleção de memórias que ele guarda é tão vasta quanto surpreendente. Já foi nocauteado por sua própria câmera, quando um torcedor comemorando um gol esbarrou no equipamento, que o acertou em cheio. Já viu uma prótese de perna voar para dentro do campo. No Peru, descobriu que não se pode entrar com cinto no estádio – “guerra de cinto?”, se pergunta. Na Argentina, quase apanhou da torcida “barra brava” do Lanús ao se aproximar com a câmera. “Fui rodeado pelos torcedores da organizada. Levaram meu cartão de memória. O prejuízo acabou ficando barato. Podia ter sido pior.”

Corintiano acompanha o jogo decisivo contra o Vasco, pela Libertadores de 2012
Foto tirada em 2025 na partida pela série D do Brasileirão entre Portuguesa e Pouso Alegre

Mesmo em meio ao caos – como no jogo do rebaixamento do Santos no Brasileirão de 2023, com gás lacrimogêneo, crianças chorando e ruas em chamas – Fábio segue firme, atento. Mas nem sempre a tensão rende boas imagens. Às vezes, o melhor da partida é o que acontece fora dela. “Tem jogo de Série A-3 que parece final de Copa do Mundo. É gente se abraçando como se fosse o último momento da vida.”

Nas arquibancadas, tornou-se figura conhecida. Muitos torcedores viraram amigos. Alguns, personagens recorrentes de seu ensaio. Outros, lembranças ausentes. “Alguns já morreram. É triste não encontrar mais aquela pessoa no lugar de sempre. Mas muitos viram bandeira, viram homenagem das organizadas.”

Torcedor do Santos "pede aos céus" um milagre para o time não cair no Brasileirão de 2023
Torcida do Comercial de Ribeirão Preto. Foto tirada durante o tradicional derby local com o Botafogo, o famoso Come-fogo, em 2025

Nas redes sociais, seu perfil @fcmpo no Instagram é um dos pontos de encontro dos amantes da fotografia de arquibancada. No site www.futeboldecampo.net, ele organiza seu portfólio com cuidado, atualizando aos poucos. E na plataforma Banlek, vende imagens em alta resolução – não por ambição comercial, mas para cobrir parte dos custos. Uma tentativa de viabilizar o projeto que, até aqui, foi movido a paixão. Sabe que seu trabalho é mais que registro – é memória.

Se vai transformar o projeto em livro ou exposição? “Passou da hora”, admite. Mas confessa que a vontade de ir ao jogo sempre vence a de correr atrás de edital. Talvez por isso o projeto siga contínuo, pulsando no tempo. “Enquanto tiver saúde, eu vou seguir fotografando arquibancadas. Talvez com menos frequência. Mas parar totalmente, só quando não aguentar mais.”


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