Mercadinho nosso de cada dia
Entre luzes de fim de tarde e fachadas vibrantes, André Tezza revela a arquitetura afetiva e resistente dos pequenos comércios
No fim da tarde, quando o céu da Região Metropolitana de Curitiba começa a perder o azul e ganhar aquele tom indeciso entre o dourado e o cinza, algumas fachadas passam a brilhar mais do que deveriam. Não são prédios icônicos, nem projetos assinados por arquitetos premiados. São mercadinhos. Pequenos, coloridos, resistentes.
É ali, nesse intervalo de luz que os fotógrafos chamam de blue hour, que o ensaio “Estruturas do Cotidiano”, de André Tezza, encontra sua força. E talvez também sua tese.
Premiada com o terceiro lugar no Latin America Professional Award 2026, dentro do Sony World Photography Awards, a série transforma mercadinhos espalhados pela região metropolitana de Curitiba em protagonistas. Uma história sobre arquitetura sem arquiteto, economia afetiva e sobrevivência.
A ideia nasceu quase por acaso, como costumam nascer as boas obsessões.
Depois de passar 15 meses cruzando o continente americano de motorhome, do Arizona ao Alasca e depois até a Patagônia, Tezza voltou ao Brasil com uma nova forma de olhar. A experiência intensa, fotografando todos os dias, reorganizou sua percepção do que é um bom trabalho fotográfico. Menos sobre imagens isoladas, mais sobre narrativa.
Foi nesse retorno, entre viagens semanais pela rodovia que liga Campo Largo a Curitiba, que um pequeno mercado à beira da estrada chamou sua atenção. Fachada vermelha, presença solitária, uma espécie de dignidade silenciosa.
Virou ponto de partida.
A partir dali, o fotógrafo começou a mapear outros mercadinhos usando ferramentas improváveis como o Google Street View. O que parecia disperso começou a ganhar padrão. Cores vibrantes. Tipografias improvisadas. Uma estética recorrente, quase involuntária.
Havia ali uma linguagem.

Arquitetura vernacular, afeto e fiado
O que Tezza encontrou ao longo dos meses foi mais do que um conjunto de imagens coerentes. Foi um sistema.
Os mercadinhos de cidades vizinhas como Campo Largo, Colombo e Almirante Tamandaré compartilham características que vão além da aparência. Muitos funcionam no mesmo espaço em que os donos vivem. Os nomes carregam vínculos familiares ou religiosos. E quase todos mantêm um elemento que já desapareceu dos grandes centros: o caderno de fiado.
É ele, aliás, que sustenta boa parte desses negócios.
Em um mercado tradicional, a confiança substitui o cartão. O cliente leva hoje, paga quando pode. Uma lógica que escapa à eficiência das grandes redes, mas que cria uma relação de pertencimento impossível de replicar em escala.
Essa dimensão afetiva atravessa o ensaio.
Não há pessoas nas imagens, mas elas estão em tudo. Na luz acesa, na porta aberta, na organização dos produtos, na escolha das cores. Cada fotografia carrega uma presença invisível.

Se Curitiba e os municípios vizinhos construíram ao longo dos anos uma imagem de cidade sóbria, quase monocromática, os mercadinhos parecem operar na contramão dessa estética.
Nada de bege.
As fachadas registradas por Tezza são vermelhas, azuis, verdes. Cores intensas, quase gritadas. Não é apenas uma escolha estética. É estratégia. É sobrevivência. É também identidade.
Na periferia, a cidade muda de tom.
O fotógrafo arrisca uma hipótese: a transformação pode estar ligada às ondas migratórias recentes, tanto de outras regiões do Brasil quanto de países latino-americanos. Uma mistura de culturas que, aos poucos, vai reconfigurando a paisagem urbana.
Os mercadinhos, nesse sentido, são também um retrato dessa transição.
A unidade visual do ensaio não é acaso. É método.
Tezza optou por fotografar sempre no fim do dia, evitando a instabilidade da luz diurna. Esse recorte permitiu construir uma linguagem consistente, na qual o contraste entre o escuro do entorno e as cores iluminadas das fachadas cria uma atmosfera quase cinematográfica.
Sem flash. Às vezes com tripé. Às vezes no limite do ISO.

Na pós-produção, entra outro elemento essencial: o uso do dodge and burn, técnica clássica da fotografia analógica que permite clarear e escurecer áreas específicas da imagem. O resultado são fotos com contraste acentuado e cores saturadas, evocando a estética dos antigos cromos.
Mais do que registrar, o ensaio interpreta.
O que poderia ser apenas um estudo visual sobre pequenos comércios ganha outra dimensão quando atravessa fronteiras.
No World Photography Organisation, responsável pelo prêmio, não basta uma boa imagem. É preciso uma história.
E “Estruturas do Cotidiano” tem.
Ao transformar estruturas ignoradas em símbolos de resistência cultural e econômica, o ensaio dialoga com uma demanda crescente no circuito internacional por narrativas que escapem do eixo eurocêntrico. Há um interesse renovado pelo que é local, vernacular, cotidiano.
Nesse contexto, o trabalho de Tezza encontra ressonância.
Não por exotismo, mas por precisão.

O que permanece quando tudo muda
Os mercadinhos seguem ali. Alguns talvez fechem. Outros talvez resistam por mais alguns anos. A pressão das grandes redes é constante, previsível. Mas há algo nelas que vai se reproduzir.
A confiança do fiado. A conversa no balcão. O filho que chega da escola e ajuda no caixa. A arquitetura improvisada que responde mais à vida do que ao desenho.
Ao fotografar esses espaços, André Tezza não apenas documenta uma paisagem em transformação. Ele revela uma camada do Brasil que insiste em existir fora do foco.
Porque, no fim, talvez a fotografia ainda seja isso: encontrar beleza para onde quase ninguém mais está olhando.
