Curitiba vista de cima
Do 11º andar de um prédio no Bigorrilho, um menino descobriu como enxergar uma outra cidade
Antes do drone, antes do helicóptero, antes mesmo da profissão, havia uma janela. E uma câmera herdada do pai, uma Pentax ME manual. Na sala de casa, slides projetados na parede. Super 8 rodando. Década de 1980. Curitiba ainda baixa, com poucos prédios, deixando a paisagem respirar.
Guilherme Pupo tinha 10 anos quando ganhou a própria câmera, uma Kodak Instamatic 110, dessas compridinhas, hoje quase relíquias. A fotografia começou como brincadeira e curiosidade. Mas havia um detalhe que ficou. A vista do alto.
Do 11º andar, Pupo fotografava a cidade pela janela. Não sabia ainda, mas aquele enquadramento moldaria o olhar. Mais tarde, lembraria também da Rolleiflex do pai, que permitia olhar por cima, com a imagem invertida. Talvez ali tenha começado tudo. Olhar de cima. Olhar de ponta cabeça. Aprender que o mundo pode ser visto por outro ângulo.




Antes de subir aos céus, ele percorreu as ruas. Formado em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná, passou por redações de jornais. Viveu o tempo em que fotógrafo e repórter saíam juntos, quando a imagem tinha espaço generoso na página impressa e podia mudar a força de uma reportagem.
A escola foi a da rua. A fotografia urbana, documental, atenta ao gesto, à sombra, ao instante.
O voo veio depois.
Em 2013, já atuando profissionalmente com fotografia corporativa, Guilherme Pupo recebeu uma encomenda para fotografar uma fábrica de cima. Alugou um helicóptero. Uma hora de voo custava cerca de 2 mil reais. Decolou do Bacacheri rumo à região do Jardim Botânico. No trajeto, pediu ao piloto para sobrevoar pontos emblemáticos da cidade. Museu Oscar Niemeyer, Largo da Ordem, Barigui, Centro.
Quando olhou pelo visor, teve a sensação de que Curitiba havia se transformado numa maquete. Nem tão alta quanto a visão de um avião, nem tão próxima quanto a janela de um prédio. Uma altura intermediária, capaz de revelar os detalhes do topo dos edifícios, os desenhos invisíveis das calçadas, as geometrias escondidas.
Ali entendeu que o olhar de rua podia ser elevado.



As referências estavam presentes. Fotógrafos como Cássio Vasconcellos e Claudio Edinger já exploravam o território aéreo com assinatura própria. Walter Firmo e Cristiano Mascaro, que ele conheceu ainda na época das bienais de fotografia, ajudaram a ampliar repertório e percepção. Mas o caminho que se desenhava era pessoal.
Em 2017 veio o primeiro drone. E com ele, a democratização do céu.
O equipamento evoluiu rapidamente. Sensores de obstáculo, registro de plano de voo na ANAC, limite de 120 metros de altura em área urbana. Hoje ele utiliza um drone com três lentes, grande angular, 70mm e 160mm. A tele aproxima a Serra do Mar do skyline. O que parecia distante ganha presença. A cidade dialoga com o contorno verde do horizonte.
Mas não é apenas paisagem que o interessa.
A base continua sendo a fotografia de rua. Só que vista de cima.





No calçadão da Rua XV, em determinadas manhãs de inverno, a luz cria sombras do mesmo tamanho dos pedestres. A figura e a projeção se confundem. A sombra parece caminhar sozinha. Do alto, o chão vira tabuleiro. Pessoas se tornam peças. Um grande jogo de xadrez urbano.
Há lugares que só existem para quem sobe. A praça com desenho de Yin Yang no Centro Cívico passa despercebida para quem cruza de carro. Os grafismos do petit pavê ganham força geométrica. A arquitetura revela intenções pensadas para serem vistas do alto.
Mesmo depois de milhares de imagens, ele estima mais de cinquenta mil arquivos aéreos, a cidade continua oferecendo novidade. Um prédio novo altera o contorno. Uma luz diferente transforma a cena. Um ciclista atravessa o enquadramento e muda a narrativa.
A cidade é viva. E o olhar também.


Parte desse trabalho já virou catálogo e exposição. Em 2017 lançou um calendário com imagens feitas de helicóptero. No ano seguinte ocupou o Museu da Fotografia, no Solar do Barão, com uma exposição de imagens feitas com drone. Também expôs em espaços independentes e participou de mostras coletivas.
Mas o mercado é um desafio. Sem galeria fixa ou intermediários, a venda acontece principalmente por contato direto, redes sociais e WhatsApp. Pupo valoriza a impressão Fine Art. A fotografia no papel. A permanência.
O fim do impresso mudou o cenário para todos que vieram da geração do jornal. A imagem hoje circula em telas pequenas, verticais, comprimidas. No Instagram, o formato impõe cortes. O impacto é outro. A permanência é outra. A abundância também dilui.
Ainda assim, há quem queira levar a cidade para casa.


Uma ampliação bem impressa restitui o silêncio que a tela não oferece. Permite que o olhar percorra detalhes. Que descubra, como ele descobriu ainda menino, que Curitiba não é apenas o que se vê da calçada.
Vista de cima, a cidade revela desenho, sombra, intenção.
Talvez o segredo não esteja na altura do voo, mas na trajetória do olhar. Aquele que começou na janela de um apartamento no Bigorrilho e aprendeu cedo que o mundo pode ser enquadrado de outro jeito.
Curitiba continua ali.
Só precisa que alguém suba.