Avião em uma pista alagada

Por trás da imagem de Anselmo Cunha que venceu o World Press Photo 2025 – América do Sul

Avião em uma pista alagada
O Boeing 727-200 da Total Cargo ficou retido no Aeroporto Salgado Filho por causa da enchente em Porto Alegre.

O helicóptero militar sobrevoava Porto Alegre, como se também hesitasse diante da cidade encharcada. Lá embaixo, o Aeroporto Salgado Filho parecia ter sido engolido por um espelho. Água por todos os lados, silêncio líquido, horizonte suspenso. E no centro de tudo, um avião imóvel, refletido inteiro na lâmina calma que recobria a pista. Não era apenas uma aeronave cercada por água. Era uma metáfora pousada.

A cena nasceu em maio de 2024, no meio da maior enchente da história do Rio Grande do Sul. E o clique, registrado para a Agence France-Presse (AFP), que cruzaria o planeta foi feito ali, por Anselmo Cunha, no helicóptero que ele conseguiu embarcar após três horas de espera no pátio do Exército, num dia que sequer era dia de trabalho. A fotografia se chamaria Avião em Pista Alagada. E ganharia o World Press Photo 2025 na categoria regional América do Sul, o prêmio mais prestigiado da fotografia jornalística mundial.

A imagem não apenas registrou uma tragédia. Capturou um símbolo claro dos efeitos das mudanças climáticas que remodelam paisagens e destinos. Um avião cercado por água, suspenso entre céu e chão. Um retrato do colapso que tomou conta da capital gaúcha e vários municípios do estado.

A imagem do avião parado na pista alagada já era de conhecimento público. Em um mundo repleto de celulares, no qual bilhões de imagens são capturadas diariamente, alguém tinha fotografado a aeronave. Não era uma notícia nova. Mesmo assim, Anselmo decidiu que iria fotografar o Boeing 727-200 da Total Cargo. Não havia drones sobrevoando o aeroporto naquele período. A área continuava proibida para voos não tripulados. Esperou horas no Exército, torcendo para que alguma rota permitisse sobrevoar a área crítica. Três horas de espera pela oportunidade. A luz do fim da tarde seria sua aliada. A lente fixa de 135mm, sua única opção mais longa, seria seu limite.

Do alto, a paisagem parecia um planeta novo. A água tão lisa que duplicava o avião, como se fosse possível uma pista no céu. A simplicidade da cena era brutal e delicada ao mesmo tempo. Anselmo fotografou. Não havia tempo para contemplação, apenas para ver e traduzir.

A foto deu certo. E mais do que isso: virou símbolo.

A imagem que rodou o mundo

Antes do prêmio, muitos veículos de imprensa preferiram imagens mais informativas, mais literais, mais explicativas. Fotos que mostravam o aeroporto inteiro, os prédios ao fundo, as pistas desaparecidas. A aposta no conceito, no poético e no simbólico ainda encontra resistência em parte da imprensa brasileira. A foto de Anselmo, no entanto, era justamente isso: síntese. Interpretação. Espanto.

Depois que o World Press Photo anunciou o resultado, a imagem ganhou o espaço que merecia. Foi capa, destaque, manchete. O que antes causava hesitação virou certeza. A fotografia se impôs como uma das mais fortes leituras visuais da enchente e de seu impacto. A narrativa simbólica que só um grande fotógrafo consegue enxergar em meio ao caos.

A foto nasceu no meio de semanas intensas de trabalho. Anselmo acompanhou a enchente desde o início, muitas vezes por conta própria. O acesso às áreas alagadas era difícil. Em vários dias, ele fotografou sem saber se venderia as imagens. A intuição guiava mais que qualquer garantia profissional.

A parceria com a AFP acabou selando a cobertura. Vinte e oito dias de trabalho direto. Só em maio, cerca de 15 mil fotos. Em junho, muitas outras. A rotina era cruel para freelancers: produzir, dirigir, editar, legendar, enviar. Muitas vezes pelo celular, quando a internet deixava.

Mas havia também a emoção íntima. Anselmo é do bairro do Humaitá, um dos mais atingidos. Fotografar o próprio território submerso era também narrar feridas pessoais.

Na cobertura diária da enchente, Anselmo fotografou com uma Canon EOS R6 Mark II e lentes fixas 35mm, 50mm e 135mm. Nada extravagante. Apenas o necessário para construir imagens honestas e fortes. Era um arsenal enxuto para uma cobertura monumental.

A imagem capturada por Anselmo Cunha para a AFP rodou o mundo. (Crédito da foto: Bibiana Gallas)

O caminho até ali

A história de Anselmo com a fotografia começou dez anos antes, quase por acaso. Ele estudava Jornalismo e, até o sexto semestre, não ligava para fotografia. As Jornadas de Junho de 2013 mudaram tudo. Enquanto seus textos passavam despercebidos, as imagens de colegas sobre a turbulência das ruas faziam barulho. Ele percebeu que a câmera poderia ser sua ferramenta de verdade.

Conseguiu um estágio sem saber focar, sem saber usar Photoshop, apenas com vontade. O entrevistador viu isso e deu a ele a oportunidade. Logo estava fotografando eventos, reportagem, cidade. Era o começo de um caminho que exigiria improviso constante e muita persistência.

O avião que segue suspenso

Avião em Pista Alagada continua a atravessar fronteiras, relatórios, arquivos, coleções. Continua evocando o mesmo silêncio tenso daquele dia. Não é uma imagem sobre o Salgado Filho, sobre Porto Alegre ou sobre um avião cercado por água.

É sobre um mundo que afunda um pouco mais a cada ano. É sobre como uma tragédia pode ser vista com honestidade estética sem perder a denúncia. É sobre o olhar de Anselmo Cunha que, naquele fim de tarde, conseguiu transformar um cenário devastado em reflexão global.

A foto segue suspensa. Como o avião. Como o tempo. Como a urgência em enfrentar a crise climática que ela carrega.

 

Conheça o trabalho de Anselmo Cunha

Instagram: https://www.instagram.com/cunhaanselmo/

Site: https://anselmocunha.com.br/