A fotografia como alquimia da memória

Da química ao laboratório fotográfico, Eustáquio Neves construiu uma obra marcada pela experimentação, pela memória e pela investigação da identidade negra no Brasil

A fotografia como alquimia da memória
Série "Futebol".

Pouca gente chega à fotografia pelo caminho da química. No caso de Eustáquio Neves, foi justamente a mistura entre ciência, curiosidade e acaso que deu origem a uma das obras mais singulares da fotografia brasileira contemporânea. Autodidata, experimental e profundamente ligado às questões da memória e da identidade negra, o fotógrafo mineiro construiu uma trajetória em que o laboratório, o arquivo e a experiência de vida têm o mesmo peso que a câmera.

Série "Futebol"

Nascido em 1955, em Juatuba, Minas Gerais, e radicado em Diamantina, ele não começou a carreira com a intenção de ser artista. No início dos anos 1980, depois de concluir o curso de Química em Belo Horizonte, decidiu fazer uma pausa para viajar e se dedicar à música e a interesses pessoais. O plano durou até o dinheiro acabar. A solução foi aceitar um emprego em uma mineração no interior de Goiás. O que parecia apenas uma necessidade prática acabou mudando completamente o rumo de sua vida.

Série "Caos Urbano".

Longe do ambiente cultural da capital, vivendo em uma vila de funcionários com poucas opções de lazer, comprou sua primeira câmera com o segundo salário. A ideia era simples: registrar o cotidiano. A fotografia virou uma espécie de diário. Sem escola, sem professor e sem plano de carreira, aprendeu sozinho, estudando por fascículos comprados em banca de revista e testando tudo na prática. Experimentava filmes, lentes, revelações e ampliações, guiado pela curiosidade.

Obra "Angela + Sempre-Vivas II"

Com o tempo, os colegas começaram a pedir fotos. Vieram retratos de família, casamentos, festas, formaturas, paisagens. Sem perceber, tornou-se o fotógrafo informal da comunidade e da própria empresa. Vendia cópias, improvisava laboratório e descobria, na prática, como transformar técnica em linguagem. “Aquilo foi minha escola”, costuma dizer.

Série "Arturos".

Em 1985 decidiu abandonar o emprego na mineração e apostar na fotografia. Comprou equipamentos, montou estúdio e laboratório e passou a trabalhar profissionalmente. No ano seguinte, já de volta à região de Belo Horizonte, abriu um estúdio próprio. Foi nesse período que a experimentação começou a ganhar força. A formação em química despertava interesse pelos processos de revelação, pelos tempos de exposição, pelas interferências possíveis na imagem. A fotografia deixava de ser apenas registro e começava a se tornar construção.

Série "Arturos".

Ao longo dos anos, seu trabalho passou a se organizar em séries autorais. Cada projeto nasce de leituras, conversas, memórias pessoais ou relações construídas com as pessoas fotografadas. Para ele, a imagem depende de vínculo e cumplicidade. O retratado não é objeto, mas coautor. Muitas vezes fotografa sem saber se vai usar o material, guardando tudo em arquivo para revisitar no futuro, quando o sentido aparece.

Série "Arturos".

Mesmo com o avanço do digital, continua trabalhando majoritariamente com fotografia analógica. Usa câmeras Nikon, prefere lentes de 28 mm e mantém laboratório próprio. O controle do processo, diz, é parte fundamental da criação. Não raramente altera tempos de revelação, mistura negativos, pinta cópias, risca superfícies, acrescenta camadas. A imagem final nasce de um procedimento que lembra mais um experimento químico do que um clique.

Série "Carta para o Mar".

Essa linguagem experimental se tornou marca registrada de sua obra. Desde a década de 1990, desenvolve trabalhos que combinam manipulação química, colagem, desenho e interferência manual. O resultado são fotografias únicas, muitas vezes impossíveis de reproduzir, em que o tempo parece sobreposto ao próprio papel.

Série "Carta para o Mar".

Um dos temas centrais de sua produção é a memória afro-brasileira. Em séries como Arturos (1994), sobre uma comunidade negra remanescente de quilombo em Contagem, e Futebol (1998), aborda identidade, corpo e história a partir de experiências pessoais e coletivas. Em Objetivação do corpo (1999), discute a representação do corpo negro e os mecanismos de olhar e poder.

Série "Carta para o Mar".

Entre os trabalhos mais conhecidos está Retrato Falado, projeto em que tentou reconstruir a imagem do avô, a quem nunca conheceu e de quem não existe fotografia. A partir de descrições de parentes, semelhanças familiares e manipulações analógicas e digitais, criou retratos imaginários que falam sobre ausência, memória e apagamento histórico. O projeto também chama atenção para a escassez de registros fotográficos em muitas famílias negras brasileiras.

Série "Carta para o Mar".

Ao longo da carreira, seu trabalho foi exibido em importantes mostras no Brasil e no exterior, como o Rencontres de la Photographie Africaine, em Bamako, a Bienal de São Paulo-Valência e a Bienal do Tokyo Metropolitan Museum of Photography. Recebeu prêmios como o Marc Ferrez de Fotografia da Funarte e o Prêmio Nacional de Fotografia, além de integrar coleções como MASP, MAM-SP, Museu Afro Brasil e instituições internacionais. Em 2026, foi contemplado com o Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes.

Obra "Crispin + Espada"

Nos últimos anos, também tem se dedicado a projetos audiovisuais e documentários, incluindo viagens à África, onde aprofunda pesquisas sobre história, diáspora e cultura negra. As experiências, segundo ele, não são apenas temas, mas parte do próprio processo de criação.

Série "Sete".

Ao olhar para a própria trajetória, não vê uma carreira planejada, mas uma sequência de descobertas. A fotografia surgiu por acaso, cresceu com a experimentação e se consolidou pela insistência em fazer perguntas. Para ele, tudo pode virar trabalho, desde que exista envolvimento verdadeiro.

Série "Sete".

Na obra de Eustáquio Neves, a fotografia não é apenas imagem. É memória manipulada, história reescrita e matéria transformada. Uma alquimia em que o laboratório, a experiência de vida e a curiosidade continuam sendo os reagentes principais.

Eustáquio Neves. (Crédito da foto: Juan Esteves)

Conheça o trabalho de Eustáquio Neves

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